Eu não posso e eu não vou admitir que ainda estou apaixonada por você. Não dá. Orgulho, medo, saudade, um pouco mais de orgulho - esse sincretismo de inércia e tantas outras coisas misturadas - eu não vou te dizer nada. Não vou te contatar. Não direi que sinto sua falta, como eu costumava dizer vez ou outra. Mas a verdade é essa, que eu escrevo, mas não profiro em voz alta: é você, aquele que superou todas as minhas expectativas. Você, e todo o seu talento, toda sua beleza em lentes fotográficas e em graus de astigmatismo e alguma miopia. Você, que captura o bonito. Você, que eu nunca vou dizer - você, das livrarias e dos cafés.
Eu queria, mas não posso. Queria pegar todo esse orgulho e jogar bem longe daqui, pra ir aí te ver. Queria poder te mandar todas as poesias. Queria que fôssemos. Não somos. E eu sei que não seremos. Típico. Acho que todos os meus romances acabaram assim. Sem rodapé. Pretérito perfeito. Fim.
Talvez pudéssemos ser diferentes, afinal, fotografias, não é? Elas permanecem. Amareladas ou preto e branco, como o mundo daquele cantor - gostaria que tivéssemos permanecido.
Porque olhar suas fotos é lembrar de você - não, não estou falando de seus olhos ou do seu cabelo bagunçado. Talvez um pouco, mas não só isso. Lembrar de você ultrapassa fisionomias vãs e entra em paisagem e horizonte - em árvores de outono, em chãos, tetos de qualquer canto, miudezas: capturando o bonito, como você costuma fazer. Às vezes sorrio para mim mesma pensando em como você pôde capturar a beleza em mim também. Aquele momento passou, mas a foto - um jeito bonito de caracterizar uma lembrança - continua aqui. Ninguém clicou, nem imprimiu, não tem pixel - mas ela continua aqui.
Embora não existam fotografias nossas, você sempre estará nas minhas lentes.
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