sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A crônica do verdadeiro (e errado) amor

Todos já tivemos um. Ah, você sabe... está bem ali, no título. O verdadeiro - mas errado - amor.
Aquele que te faz perder a respiração enquanto as pernas tremem e que, assim de repente, faz o seu estômago parecer um depósito de casulos onde desabrocham e dançam milhares de borboletas. Não exagero: milhares. Você já teve esse amor, não é? Eu também.
Escrevo para esse amor quase todos os dias, mesmo sabendo que ele não irá ler. Mesmo entendendo que o nosso tempo já acabou faz tempo - mesmo reconhecendo que nossas vidas de alguma maneira precisam ir em frente. Parece simples, não é? Quem dera.
O verdadeiro e errado amor é mais complexo do que isso. Todos sabem que não foi feito para dar certo. Até nós sabemos; nós só não reconhecemos. Batemos o pé, choramos - ah, como choramos -, fazemos birra... chegamos até a dizer: "O amor é o suficiente". E pronto. Mas nesse caso, querido leitor... quase nunca é. É amor, mas é errado. A milhares de quilômetros, errado. Ao lado, mas errado. O tipo de amor que machuca, mas que a gente quer sentir. O amor que te faz brigar com todos que discordem dele, até mesmo quando é o seu irmão, a sua mãe, aquele seu sábio tio...
O tipo de amor que parece uma raiz aérea, tentando sobrevoar o terreno alagado, buscando forças, devagar mas sempre, procurando viver. Sobreviver.
Ah, o verdadeiro e errado amor... aquele que vive nas mentes de todas as senhoras e senhores que já tiveram dezesseis. Aquele que te dá coragem de cruzar cidades, de fugir de casa, trocar de nome e até - olhe só! - sobrenome. O amor que te faz pegar o cofrinho com moedas de um real, contar uma a uma, só pra ver se tem o suficiente para os dois irem embora.
O verdadeiro e errado amor é aquele que nunca desiste nem nunca desistiu, ele só adormeceu. Acho que todos já tivemos um; é só fechar os olhos e lembrar. Quantas cartas rabiscadas, quantas lágrimas e gritos, só por causa de um sorriso. Aquele sorriso que tinha luz de paraíso, aqueles minutos, aquelas horas... até meses. Sim. O verdadeiro e errado amor é paciente. O tempo parece não passar. Mas infelizmente ele passa... e esse amor tenta sobreviver - ele consegue, mas é empurrado, encaixotado, embrulhado pelo medo - o "será que"? Pela dúvida. Pelo talvez. Pelo mais tarde. Pelo não.
E logo esse verdadeiro e errado amor vira cartão postal escondido embaixo de todos aqueles livros e diários da adolescência; se transforma em conselho para os filhos, em memória através de músicas.
Fotografia velha. O bom e velho amor.
O verdadeiro, mas errado amor.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Anjos

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam...
(Clarice Lispector)

Eu era bem nova. Tinha uns seis, sete anos. - Quase sete, eu costumava dizer, muito feliz, quase orgulhosa. Afinal, não é isso que quase todas as crianças sonham? Ficar mais velhas... existe uma mágica diferente em ser mais velho, ou a gente achava que existia. Mas isso era um assunto para alguns anos mais tarde...
E lá estava eu, no pequeno parquinho da cidade, um dos meus lugares preferidos no mundo, simplesmente porque aquele parque era diferente - de todos os parques do mundo, aquele era o meu parquinho. Meu velho e conhecido. Era diferente também pelo fato de ficar bem no alto da serra que era próxima a minha antiga casa - e se a gente olhasse com cuidado, víamos as nuvens nascendo, criando forma, indo, vindo. Era tudo tão lindo.
Como em todo o parque, esse também tinha balanços, escorregos, areia, crianças, sorrisos... ah, as risadas! Aquela gritaria que fazia qualquer um sorrir junto - espantava qualquer tristeza, até a do meu pai, que sempre me acompanhava quando eu ia ao parquinho.
Em geral ele era uma pessoa solitária, o papai. Trabalhava tanto, se esforçava tanto, fazia sempre tudo, recebia quase tão pouco. Ele não era de reclamar, mas era triste. Triste até chegar em casa. Sempre às cinco da tarde. Era pontual. Ele chegava, me abraçava, me rodopiava pelo ar como uma bailarina, e fazia o mesmo convite: - vamos ver os anjos no parquinho? - e eu sorria. - vamos, papai! Vamos!
Ele segurava a minha mão e cuidava de mim. Olhava e prestava atenção, mas me deixava cair vez ou outra. - Oh filha, precisa cair vez ou outra pra se levantar de novo. Se ralou? Chega aqui, dá um abraço no papai. - era o abraço mais aconchegante de todos. O meu melhor amigo de todos. De todos, o meu papai. Haviam más notícias, vez ou outra era difícil, mas eu sabia que estaríamos sempre juntos.
E então entardecia. Quase seis horas. E chegava a hora... - vem, filha! Vem pra o braço! Vamos ver os anjos! - e eu corria para ele. Ficávamos ali admirando. Os passarinhos voltavam para suas casas. As nuvens mudando de azul para amarelo e laranja e rosa. Rosa era a minha cor preferida de nuvem. A brisa subindo e descendo. As luzes se acendendo lá embaixo, no nosso vilarejo. Mas nós só conseguíamos olhar para o céu. Procurando os anjos, segundo o papai.
Eu nunca os vi, mas ele me garantia que eles estavam ali. Estavam sim.
- Filha, não deixe que ninguém te diga que os anjos não existem. Eles existem sim. Eles estão em você. Estão em mim. Os anjos estão sempre ao nosso redor. Ali, está vendo? - ele apontava. - Aquela é a estrela Dalva. Dali eles também podem nos ver. Daqui nós podemos chamar. Eles sempre vão nos ouvir. Sempre vão estar aqui. Sempre, não importa o que aconteça. Como a mamãe. - Ele colocava a mão no lado do coração. Pus também. - Como a mamãe. - Sorri.

Os anos se passaram. O papai já foi morar numa estrela. A mamãe também. Mas quer saber? Eu ainda sei que os anjos existem. Cheguei tarde do trabalho, exausta... mas olhei para o céu. E antes olhei para as pessoas ao meu redor. Eu sei que o mau humor existe, o dia ruim também... mas também conheço os sorrisos. O bom dia, o abraço inesperado, a gratidão de olhos fechados, o "eu acredito" - e eu resolvi acreditar nesses pequenos grandes anjos. Eles não estão apenas no céu, na estrela Dalva... eles estão aqui. Estão em você. Estão em mim. Anjos. É, eles existem.
Obrigada, papai.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Salut, Marin!

Comecei o dia na companhia duma bela alvorada. Digo, bela mesmo. Havia passado a noite inteira acordada, observando um por cento do universo que estava na palma da minha mão. Estava. As cores das hortênsias e orquídeas no jardim que fiz questão de cuidar no verão passado. O latido desesperado dos cachorros da vizinhança, protestando por liberdade. "Liberdade!", latiam em coro, eu imaginava. E sorria. É, acho que todos sonham com essa tal liberdade, não é? Sinceramente, naquele momento eu não sonhava. Nem dormia. Abaixei a cabeça e pude observar em cima da velha mesinha perto da estante a prova da despedida do meu amado, que dormia tranquilo logo ao lado. O meu marinheiro. Ele queria os sete mares. Ele queria abraçar o mundo e sentir-se abraçado pelo universo. Ele queria o infinito e o além. Eu só queria ele. 
Na noite anterior bem que tentei dizer isso para ele, mas marinheiros têm a alma livre. Eles precisam velejar. Remar. E infelizmente os ventos sopravam para a direção oposta a mim. Os ventos sopravam para o mundo. Meu bravo marinheiro queria desbravar o mundo. De vez em quando a mãe dele nos ligava e chorava a noite inteira insistindo para que ele ficasse. Para que ele fincasse. Literalmente. Mas ele era um marinheiro, e os ventos dos marinheiros hora ou outra sempre decepcionam. A imensidão azul não aceita amor. E eu achava puro egoísmo do mar querer ele quando existiam tantos no mundo. Com tantos no mundo, por que ele? Por quê o meu marinheiro? Entre lágrimas e retóricas, eu fazia o meu oceano particular. Mas ele não queria o meu oceano nem meu mar. Ele queria o mundo. Queria os mares, pois já havia aprendido a dizer adeus. Ele só sabia dizer adeus. Quando estávamos juntos, entre um beijo e um sorriso, ele dizia que voltaria. Mas eu sabia que era mentira. Ou talvez não fosse mentira. Talvez ele quisesse. Mas não, ele nunca voltaria. Abaixei a cabeça mais uma vez, acrescentando mais umas gotas ao meu Oceano Pacífico; ao oceano que eu queria que fosse pacífico. Olhei para o lado e vi aqueles pequenos olhos azuis me fitando. Olhos que sorriam, enquanto eu protestava em silêncio. O oceano roubou ele de mim. O meu amor. O meu marinheiro.
 Depois da costumeira ducha matutina, ele se vestiu. Enquanto ele estava ali, engomando mais uma vez cada peça de seu uniforme, toquei os lábios dele minuciosamente fazendo-o parar de arrumar aquela roupa que eu tanto odiava. Tocava-lhe os lábios como se fosse a última vez. Era a última vez. A última vez. Uma lágrima teimosa rolou por minha face. Agora estava de frente a ele. Observando cada expressão de sua face. As sobrancelhas sempre inquietas. Uma em cima, outra embaixo. A boca sempre se mexia, mesmo quando ele não queria me dizer nada. Os olhos sempre atentos. Eu sempre seria uma pobre guerreira desarmada diante daqueles olhos. Olhos que sorriam. Olhos que prometiam. Olhos inquietos, que se desviavam, que fugiam. E fugiram. Conversávamos mais com os olhos. Até mais que a própria boca. A gente nunca precisava de palavras. Sorríamos no olhar. Conversávamos no olhar. Amávamos num simples e único olhar. Mais uma lágrima clandestina em meu olhar silenciosamente descia pelo meu rosto. Molhava o meu rosto. Era o meu oceano. Ele me abraça, beija minha cabeça, me faz um cafuné rapidinho, um carinho e termina de se arrumar. Termina de se arrumar para o adeus. Perto da porta, observei-o partir. Aquele ar de decidido. Aquele quê de mistério e bravura que eu tanto admirava. Estava partindo. E partiu meu coração. Fechei os olhos e cantarolei a famosa cantiga para que apenas o meu oceano escutasse. Meu oceano que se foi. Que secou. Oceano que partiu e deixou comigo apenas água.

"Salut, marin! Bon vent à toi

Tu as fait ta malle, tu a mis les voiles

Je sais que tu n'reviendras pas

On dit que le vent des étoiles

Et plus salé qu'un alizé

Et plus salé qu'un alizé

Plus entétant qu'un mistral

Plus entétant qu'un mistral

Au revoir marin, tu vas manquer

Au revoir marin, tu vas manquer

Tes yeux bleus, ton air d'amiral



Salut marin bon vent à toi

J'te dis bon vent mais ça m'fait mal

Car marin tu emportes avec toi

Toute notre enfance de cristal

Et notre jeunesse de miel

Et notre jeunesse de miel

Et tous nos projets d'arc en ciel

Et tous nos projets d'arc en ciel

Et du Cap Horn à Etretat,

Du Havre aux plages de Goa

L'horizon à toi se rappelle



Vous, les marins, vous êtes ainsi

Vous ne savez rien d'autre que partir

Vous, les marins, vous êtes cruels

Vous nous laissez au large de vos souvenirs

Vous, le marins, vous êtes sans coeur

Vous préférez la mer à vos amours

Et les sirènes de chaque port

À vos mères, à vos femmes et à vos soeurs.



La vie marin passe sans bruit

Comme autrefois tout en secoussses

Quelquefois c'est la houle et le roulis

Et quelquefois la vague est douce

Alors je fais comme il se doit

Alors je fais comme il se doit

Je vis tranquille au bord d'un précipice

Tranquille au bord d'un précipice

Marin tu serais fier je crois

Marin tu serais fier je crois

Je vis de face, le vent aux trousses

Tout comme toi."

Salut, marin... bon vent à toi. Je veux savoir qu'un jour vous reviendrez. Je t'aime. Melhor dizendo... eu amo você.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A sua música

Em algum lugar, longe.
- Ela se parece tanto comigo. - Parece traduzir tudo o que eu sinto. - Minha nossa, é impossível. É uma clara definição de nós dois. - Não tem como eu ouvir essa música sem lembrar de tudo. - Ah, não. Não aqui. Por quê? Não quero ouvir essa música agora. Eu estava tão bem. Que seja. Vou embora.
Em algum lugar, bom.
- Ah, lembra dessa? Foi o melhor dia de nossas vidas. - Essa é a música da minha despedida de solteiro, e cara... foi incrível. Quando escuto essa música, tudo vem a tona. - Veja, escute! Essa tocou na minha formatura. É tão animada. - Espere, espere, volte a estação! Eu simplesmente adoro essa música. - E para nossas bodas de 50 anos de casados... nada mais justo que a nossa música. Eu te tirei para dançar assim que a ouvi tocar, se lembra, meu bem?
Músicas. Parecem caixas, fragmentos, caleidoscópios. Elas lembram tanta coisa. São tanta coisa. A música do meu casamento. A música do enterro do meu avô; parecia uma lágrima.
Que momento inesquecível.
E através de uma canção ele se petrifica, cristaliza, eterniza. Não importa o quanto não se lembre, quando ela tocar... você vai lembrar.
Incrível, não é? Parece que ela me seguiu até aqui. Nesse bar, nesse carro, nessa rádio. E ela começa a tocar junto com as batidas do meu coração. Uma música.
Para o escritor: a música me inspira, me acalma, me faz pensar. Pensar me faz escrever. Imagine um mundo sem música? Para o compositor: além do meu ganha pão, é um ganha vida - ouvir ela tocando por aí, tocando em olhos, ouvidos, em histórias... ah, a música também é história. Feliz ou triste - ela continua sendo. Ela vai ser.
Aquela música antiga dos seus pais, você colocou pra tocar por acaso, e quando eles ouviram... tudo voltou.
A partitura, a nota, o arranjo... de alguma forma te fazem lembrar, te fazem ser, voltar. A música nunca vai se perder.
Eu não conheço o mundo dos surdos, mas nada me fará desacreditar que lá, de alguma maneira que nós ainda não conseguimos entender, existe música.
Música para os meus ouvidos. Para o meu coração. Dedos, mãos, pés... me faz dançar.
Onde quer que esteja, admirável peregrino, não se esqueça dessa canção. Mesmo que o mundo esteja em silêncio, dance. Dance, por favor... dance. Existe música dentro de você. Dentro de nós.
Ouviu? 

domingo, 15 de novembro de 2015

O primeiro encontro

Eu era nova. Tinha uns quinze pra dezesseis anos. Ele era mais ou menos um ano mais velho que eu. Nos conhecíamos há uns 10 anos. Eu sempre fui apaixonada por ele, mas nunca tive coragem de admitir. No fundo eu podia sentir que ele também sempre fora apaixonado por mim, mas como eu... nenhum de nós tinha coragem de admitir. Passaram-se esses dez anos, e ele finalmente me convidou para dar uma volta por aí. Eu adorava sorvete. Ele também. Éramos o tipo típico alucinadamente louco por fast foods. Uma geração coca-cola alternativa! E ele havia me chamado pra sair. 
Como eu deveria me sentir? Deveria sorrir? Dizer "olá"? O que é que pode ou o que não pode se falar num primeiro encontro? Digo, primeiro encontro mesmo. Eu tinha quinze anos mas nunca havia saído sozinha com um garoto. Muito menos com aquele garoto de dez anos atrás. Que roupa? Muita maquiagem? Não, nada de muita maquiagem, odeio excesso de maquiagem! Um vestido? Salto alto? Eu era péssima usando salto! Short? Short. Blusa? Camiseta? Cardigã? Rosa? Verde? Amarelo? Pulseira? E no que ele estaria pensando naquele momento? Calça, tênis e camiseta? "Ah, para os homens é sempre tão mais fácil...", pensei. Repensei. "Nada de salto! Essa maquiagem é um espalhafato! Não vou usar vestido. Não. Hoje eu vou ser quem eu sempre fui e quem sempre serei quando estiver ao lado dele: eu." Um eu um pouco mais nervoso que o normal... mas ainda assim, seria eu! 
Coloquei um short, uma blusa, meu sapato preferido e uma bolsa legal. Me olhando no espelho, pude brincar de ser eu. Daí pensei... "É. Com ele eu posso realmente ser eu. Sem fingir ter um, dois ou três eus. Eu sou simplesmente eu.". Sorri. Conferi o relógio. Quase seis. O coração que tinha se aquietado voltou a dançar, e dançava rápido! De repente minhas pernas tremem. Arrumo a blusa uma vez. Duas. Três. Coço o pescoço. Olho o relógio mais uma vez. Suspiro. Corro na cozinha. Água, água! Um copo d'água pra esse coração descansar! Me olho no espelho, dou um último suspiro... 
A campainha toca. É ele. E de repente meu coração se aquieta... e sorri novamente.

Eu não sei se você é o amor da minha vida

Duas e meia da manhã, conferi no relógio. Ótimo. Mais uma noite de insônia. Levantei a procura de algo, de um, de alguém... mas não sabia o quê, quanto, quem. Caminhei devagar até a janela. Luzes de Lisboa. Ela não possui esse título oficialmente, mas, naquele momento, era a minha cidade luz. Sorri. Duas e meia, e a cidade continuava acordada. Pessoas caminhando, pessoas se abraçando, pessoas caindo, pessoas chorando. Como uma confusão orquestrada, era o amor daquela cidade. - Amor. - repeti baixinho. Amor. Desviei o olhar para minha mão esquerda. Aquele anel caro. Tão lindo... eu não sabia qual era o preço do amor, mas com certeza não era aquele. 
Fechei os olhos. - João... eu não sei se você é o amor da minha vida. - Suspirei. Ah, meu Deus... e agora? Mas já estava tudo pronto. Todos os preparativos. Do arroz ao vestido. Oh céus. Estava tudo tão certo. Ele era tão certo. Éramos tão certos. Éramos. Nos conhecemos a seis anos na faculdade de Lisboa, era perfeito. Era mágico, aos olhos de todos. Ele era lindo, educado, inteligente, pessoa boa. - Um príncipe em candura -, sonhava a minha mãe ao falar dele.
Mas não era isso o que eu queria. Não era o que eu sonhava. Eu sei que existem príncipes e princesas, e todos eles possuem seus respectivos finais felizes, mas eu não era nobre. Muito menos princesa. Não queria ser. Não agora. Era tudo tão confuso. 
Caminhei até a gaveta onde guardava as fotografias e revirei até achar o nosso álbum de memórias. E era só aquilo. Mesmo lugar. Mesmo restaurante. Mesmo lanche. Mesma saída. Mesmo filme. Mesmo disco. Só repetia. Mesma frase. Mesmo dia. É que o meu coração cansou de mais do mesmo. Era tudo a mesma coisa, mas eu mudei. Eu deveria estar bem, supostamente bem, faltava menos de dois dias para o que deveria ser o grande dia... mas para mim eram dois dias para o mesmo dia. Eu não podia. Não. Eu não queria estar numa redoma. Eu não queria, eu não podia e eu não posso. Para mim chega. Chegou. 
Fui até a escrivaninha. Papel. Papel de quê? Papel de adeus. Suspiro. Ah, Beatriz... só por esse momento queria ser menos Bea e mais atriz. Achei a caneta. Apanhei as palavras. Eu sinto muito. Eu sinto muito.
- João, meu amor.  Você é tudo o que o mundo sonha. Olhe só pra você, tão bonito, sorridente, tão certo, tão exato. Você é tão constante quanto o sofrimento do Inferno de Dante. E eu sou Beatriz. Mas eu não sou sua. Eu sinto tanto. Eu amo você, João. Amo suas certezas, sua confiança, seus pés no chão. Mas é que todos os dias eu me acordo sentindo que tenho asas. Eu não posso ficar no chão. Eu não quero ficar no chão. Eu preciso voar. Eu preciso ir. É inexato, é sem sentido, e ninguém vai entender... muito menos você. Mas é isso que eu sou. Eu sei. Eu sei que eu amo tudo que você é, e é por isso que eu estou indo. Eu mudei, e eu não quero que você mude por mim. Eu não quero mudar por você. Eu não posso. Me desculpe, eu não vou.
Eu adoraria ser a sua esposa perfeita. Trabalhar de segunda a sexta, chegar mais cedo e preparar a sua janta, te esperar chegar e passar a noite conversando em frente a lareira. Aos sábados, jardins. E aos domingos dormir de mãos dadas no aconchego de nossa rede brasileira. João, eu não estou pronta. Não sei se um dia vou estar. Por favor, isso não é sobre você. É sobre mim. É sobre Deus. É sobre me perder para mais tarde, talvez, me encontrar. Eu não quero que você me espere, porque eu não tenho pressa.  
Te escrevo de perto, mas de longe, como sempre estive. Eu preciso ser longe para me achar de perto. João, eu quero ir embora - não só de você, mas de tudo. Eu só quero sentir a chuva, fechar os olhos e acordar no Japão, na Índia, até na Rússia - quem sabe? O amor da minha vida talvez seja a vida. As pessoas que vem e que vão. Como um trem grande e bonito que nunca para. Eu quero ir com ele. Eu preciso ir. Eu não espero que você me perdoe, não agora. Não espero cartão postal dos meus pais, nem do meu chefe. E tudo bem. Eu só preciso ir agora.  Eu sinto muito. Adeus

Beatriz

- Mas Beatriz... - você pode estar se perguntando. - Você já encontrou ou já sabe quem é o amor da sua vida? - E eu te respondo:
- Eu não sei. Talvez o sentido seja esse. Ou a graça, graças a Deus. Quase mais nada me apressa. E você, já encontrou o seu?


   

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobrevivente

Era difícil respirar. Ele se achava o dono do mundo, o Deus, o tudo. E eu? Nada. Eu não era nada. Ou um algo vez ou outra. Produto. Objeto. Saco de pancadas. Ele me fazia sentir um lixo. Humilhada, jogada, pisada, cuspida. Eu não sabia o que fazer além de chorar. Fingir que estava bem? É, eu era muito boa nisso. 
Jarros quebrados, portas arrombadas, coração despedaçado - mas meia hora depois se estivesse tudo bem para ele, então tudo devia estar bem para mim. Era como morrer aos poucos. Como aquele jarro quebrado, eu estava em pedaços.
- Calma, amiga. Não foi nada, juro. Como pode ter sido alguma coisa séria? Ele é formado, esclarecido. Rico. Doutor. Leitor. Eu tenho sorte. Eu tenho muita sorte de ser a esposa dele, (apesar de) por tudo. Ele estava estressado, eu posso perdoar, não posso? Afinal, eu estiquei a corda. Eu não devia ter dito que não estava bem. Não devia ter dito que doía. Fiz por merecer. Ele não me estrangulou, só apertou um pouco mais forte. Eu entendi. Eu o amo. -
Ele chegava em casa de onze, doze, uma da manhã. Eu entendia. Eu sorria. Fingia. O jantar estava pronto. Prato bonito, cheio, passei a noite inteira preparando. Queimei até os dedos por isso, mas nada que não pudesse ser disfarçado. As crianças estavam no quarto, já dormiam. Minhas crianças. Meus dois tesouros. Eu faria de tudo por elas, até mesmo aguentar aquilo em silêncio.
Ele bebia. E então começava a dose de humilhação diária. - Seu lixo. Você não é nada. Vagabunda. - Ô amorzinho, não fala assim, dói tanto. Ele falava. E eu chorava escondida. Doía. Tanto. Essa era eu.
Nada de batom vermelho. Esse vestido? Nem pensar. Sair de casa? Vai se encontrar com ele, não é? Mulherzinha! Falo isso porque te amo. Vem cá, vem. Olha o que eu comprei... panelas de inox. Essas são boas, meu amor. Vai fazer minha comida, vai. Vai lavar minhas roupas. Volto hoje talvez. Amanhã, quem sabe. Você vai continuar aqui, minha doce es(crava)posa.
Ah, respiro fundo. Passou. Acabou. Chega! - É outro, não é? Você não pode me deixar, meu amor! Eu vou morrer sem você. Você vai morrer sem mim. Vem cá, por favor. Você nunca vai encontrar alguém como eu. Venha cá agora, ou eu... - ou você o quê? Você nada. Você não é o meu dono. Você não é mais minha amarra. Você não pode mais me bater. Não pode mais me ferir. Eu sou uma boa esposa, eu vou ser melhor. Eu sei. E você não vai mais me machucar. Nem a mim nem às minhas crianças. Nunca mais. Eu não estou mais cega. Nem surda. Eu nunca mais serei muda. Eu não vou mais aceitar.
Ainda respiro.
Meu Deus.
Adeus.

domingo, 8 de novembro de 2015

As pessoas costumam dizer: "Deus vai te surpreender esse mês!" 
Não. Não não não. Por que só esse mês? Por que só um dia? Deus nos surpreende todos os dias. Deus me surpreende quando me escuta antes mesmo de eu falar. Deus me surpreende quando faz o sol nascer e a lua chegar. E isso acontece todos os dias! 
Deus me surpreende quando os passarinhos cantam, quando duas pessoas se abraçam e se perdoam. Deus me surpreende com o café quente que eu tomo todos os dias e, graças a Ele, nunca faltou. Deus me surpreende quando me lembra que existe, sim, esperança; quando sussurra no meu ouvido que não é à toa que hoje se chama presente: é de presente mesmo. É de graça! E os presentes de Deus são sempre uma surpresa. Me surpreende saber que mesmo com todos os meus defeitos, remendos e ausências, Ele me ama. Amor incondicional. Amor com todas as letras. Amor surpreendente.
Daqui a pouco você vai dormir, e apesar de tudo, ou por tudo, você está vivo, você está em paz. Pode não estar como você queria, mas ei! Amanhã é outro dia, e... adivinha: Deus vai te surpreender nele também. Mais um presente. Uma surpresa todo dia, mas que não duram por um só dia... percebe?
A gente já parou pra agradecer por um amor assim?
- Eu queria ter pra sempre a mente de uma criancinha - disse a minha mais nova amiga de 11 anos. Sorri. - É que as crianças dos dias de hoje crescem muito rápido, sabe? Vê só, as pessoas da minha sala já namoram... eu acho isso tão chato! Quando dizem que eu pareço mais velha não gosto. Ser criança é melhor. Porque imagina... mesmo eu bem velhinha, pra minha mãe ainda vou ser a criancinha dela! Eu ainda vou ganhar presente e brigadeiro de chocolate. Ela vai estar sempre por perto; quero muito que seja assim. - sorri outra vez. Ainda bem que coração não precisa envelhecer.

Muros ou pontes?

Hoje meu professor falou um pouco sobre muros. Muros de cidades, muros de condomínios, muros de vida. - Os muros escondem o que existe do outro lado. Ele te impede de proteger o outro. Te impede de ser um cuidador em potencial. - Acho que ouvi ele dizendo algo sobre cuidador ou segurança. E me peguei pensando: temos cuidado de alguém? De quem? Quantos muros por dia temos construído? O seu vizinho está sofrendo atrás daquele muro enorme de "eu estou bem". 
Tudo é muro. Era o Muro de Berlim, a Muralha da China, e atualmente tem o muro da Cisjordânia. Mas além desses muros, existem os que nós construímos. Não seja bobo, foram com mãos humanas que erguemos o concreto que cobre e esconde.
Ao mesmo tempo penso nas pontes. A London Bridge, a Pont des Arts (aquela dos cadeados), e um pouquinho mais perto da gente tem a Ponte do Paiva. Mas mais perto ainda existem os nossos corações. - O quê? Nossos corações? - você pode me perguntar. E eu te respondo que sim. Você é uma ponte, só está ocupado demais tentando ser muro. O seu coração é uma ponte, só está ocupado demais afastando. Acredito que todos nós somos pontes. Pontes fortes e bonitas. Nós somos capazes de unir sorrisos, de unir mãos, unir ideias, unir corações. Pontes com pontes? É. Nossa ponte não está longe. O amor é a nossa ponte. Eu quero ser uma ponte.

Maria sou, Maria somos

Voltando pra casa tranquila dentro do meu já tão conhecido ônibus das sextas-feiras, tive aquela sensação boa de conseguir um lugar do lado da janela. Os ventos que me fizeram descansar me trouxeram a lembrança da minha irmã da Índia que nesse exato momento volta sozinha e com medo dentro de outro ônibus. Ela teme por sua vida todos os dias. Peço instintivamente para que Deus esteja ao lado dela, como peço para que esteja ao meu lado todos os dias. É tão perigoso ser mulher. Ser flor.
Eu não moro na Índia, mas eu moro no Brasil. E é sonhando que um dia a minha irmã indiana vai andar na rua sem medo é que defendo a minha irmã brasileira. Eu escolhi ser amor, coragem e fé. O amor me faz ser forte. Me faz ir seguindo o sonho de defender minhas irmãs Maria, Amélia, Ana.
Eu não as conheço, mas as nossas histórias são iguais. Também é por elas que eu estudo, que eu grito, que eu escrevo, que eu sou. Eu sou como elas são. Nós somos como elas são. Somos irmãs, somos uma, e isso também é amor. Essa é a luta, a força e a doçura de ser mulher. Nós vamos conseguir, Marias. Eu também sou vocês.

Já dizia Drummond, do 'eu etiqueta'

Todos os dias você se levanta bem cedo...
Toma o seu café, apressado, pois não quer atrasar-se para sua aula ou para o seu trabalho. Todos os dias, na mesma pressa, você pega o seu carro, seu ônibus, seu táxi, e segue seu rumo. Você se mata de trabalhar para ter uma "vida estável". Uma "vida decente". Talvez você se mate de estudar para, como dizem todos os pais ou a maioria deles em todos os discursos para "ser alguém na vida". Todos os dias você se mata para alcançar o que supostamente chama-se "vida". Talvez você adore uma roupa de marca. Hollister, Nike... e se você é mulher, deve adorar Louis Vuitton. E mesmo que você não possa comprar o tão adorado artefato etiquetado com uma grife cara, você junta, economiza todo mês ou às vezes o ano inteiro para conseguir o tão sonhado relógio. A tão sonhada bolsa. Mas, entre tudo isso, onde está você? Onde esconde-se seu verdadeiro eu? Cadê os seus verdadeiros sonhos? Não te julgo por gostar de uma roupa de marca. Gosto de coisas boas, mas até que ponto elas me etiquetam e fazem a minha cabeça? Até que ponto eu fujo do ser para o ter? Eu sinto te informar, mas uma roupa de marca não vai marcar teu coração. Um carro grande e caro não vai comprar filhos, uma esposa dedicada, tampouco uma família feliz. Talvez você seja pai (mãe) e se mate de trabalhar para dar ao seu filho "o que você nunca teve". Todos os dias acorda cedíssimo e volta tardíssimo para matriculá-lo numa escola de qualidade e dar a ele tudo do bom e do melhor. Mas você acaba se esquecendo que o verdadeiro "bom" é a sua essência que é doada e inspirada ao seu filho. O "melhor" é o amor que seu filho, que sua esposa ou seu esposo, sentem de você quando você se lembra de que o mais importante nunca foi um carro caro ou uma casa da moda. É maravilhoso viver bem, é ótimo quando estamos estabilizados financeiramente. Mas pais, mas mães, por favor não se esqueçam de que o verdadeiro amor o dinheiro nunca irá comprar. Lembrem-se de seus filhos e do quanto eles sonham e vibram com sua chegada. Passe mais tempo com os seus pequeninos, isso é importante. Um xbox ou um wii não substituem nem nunca substituirão os seus abraços. O amor não é algo que se sintetize. Aonde está você agora? Onde está sua família? Procure-a, pois no fim das contas, o seu grande e único tesouro que realmente ganhastes na Terra é ela.
Jovem... cuidado. Por que você fica pensando que o verdadeiro amor é apenas uma palavra ou uma embalagem? Por que você se veste tão bem por fora e esquece de se encontrar por dentro? Por que você fica, se ficar é algo tão passageiro e descartável? Por que você se contenta com o supérfluo? Por que um iPhone e uma roupa cara te deixam mais bonito? Não deixe que o mundo apague o amor do teu coração. O amor é algo que não pode ser comprado. Não possui etiqueta, não vem embalado. Mas no fim das contas, no fim da vida, é a única coisa que você verdadeiramente tem. Trabalhe, mas trabalhe com um objetivo maior do que apenas possuir o que o mundo e suas superficialidades te mostram nos comerciais. Estude, mas estude para ser, além de gente, ser humano. Estude para fazer sorrir seus filhos, para dar a eles o bom e o melhor, mas que esse bom e esse melhor sejam primeira e essencialmente o seu completo coração revestido do seu amor. Não te esquece que a roupa rasga, o celular fica obsoleto, o carro bate, a maquiagem borra, as lágrimas ainda descem... e você envelhece. Quero o bom e o melhor pra mim, mas acima disso, quero o bom e o melhor para o meu coração e para quem me rodeia. Quero esperança. Quero antes de tudo, Deus ao meu lado. Quero a graça de um coração cheio de amor. Cansei de querer ter e me esquecer de ser. Cansei de ser um ser vazio... eu não sou e não serei um simples 'eu etiqueta'.

Quantas curtidas você merece?


Hoje a "prenda" do terceiro ano foi a do mendigo, e não pude deixar de pensar e lembrar...
Engraçado como existe tanta gente no mundo que nesse momento mendiga um prato de comida, um teto, uma família, educação, saúde... irônico que enquanto mais da metade do mundo anda mendigando paz, amor, vida... você fica aí mendigando curtida. Mendigando popularidade numa rede social enquanto tantos por aí mendigam por um abraço de uma mãe ou um pai. Mais engraçado ainda é que você tem tudo nas mãos e insiste em dizer que não tem nada. Nós não sabemos o que é mendigar no meio das ruas. Você não sabe o que é pobreza, pois está lendo isso de um smartphone ou de um computador. Por quê perdemos nosso tempo mendigando coisas tão fúteis se possuímos gratuitamente o amor? Pra quê passar o dia numa rede social implorando e apelando por curtidas quando você só tem essa vida? Dia após dia ignoramos a pobreza, a fome, a falta. Esquecemos de tudo que recebemos e de como somos privilegiados. Nos prendemos a futilidades e perdemos a nossa essência. Nossa geração se resume a whatsapp e a curtida de Facebook. Cadê sua essência agora? Cadê seu ganho? Enquanto você tá por aí mendigando um botãozinho chamado "curtida" tem dez mendigando a vida. Quantas curtidas o seu "ser" merece?

(Do dia 23 de maio de 2014)

sábado, 7 de novembro de 2015

Minha pequena nebulosa

Quem me conhece sabe bem: eu sou um ímã para desastres! Tropeços e escorregadas e quedas e topadas. Não vivo voando mas vivo caindo por aí! É difícil me ver sem uma manchinha roxa no joelho ou nos braços. 
E essa semana não foi diferente: caí de novo! Dessa vez doeu muito. Ganhei uma nova manchinha roxa. Ficou "em alto relevo" como diz a minha irmã mais nova.
Mas pensando bem, foi sim diferente. Hoje me peguei olhando esse pequeno hematoma e do nada comecei a sorrir. Ele parece uma pequena galáxia. Ou um planeta. Uma nebulosa. Isso! Uma nebulosa.
Agora não preciso mais ficar implorando por um telescópio, tenho uma nebulosa bem aqui na minha perna!
Na hora dói, é ruim, e até irrita. Você reclama, se culpa e fica se perguntando o porquê de ser tão desastrado. Mas o que seria da minha nebulosa se não houvessem os meus desastres?
Lembrei das manhãs e das noites. Sabe, eu amo o céu azul lisinho. Sem nuvens. Mas o que seria dos que amam sem as estrelas para ouvirem?
Parei de pensar tanto no sol que às vezes parece se pôr tão rápido e comecei a olhar para as estrelas. É escuro, mas elas estão brilhando.
Talvez seja esse o mistério das nossas nebulosas. Eu posso vê-las como simples hematomas que vão me lembrar do quanto eu sou estabanada, ou... eu posso inventar minha própria constelação no meu espaço estelar.
As estrelas brilham até quando caímos.

Meus pés, teus calos

É preocupante quando seis horas de salto são mais preocupantes para alguém que seis horas de pé num ônibus lotado.
É estranho quando nos irritamos quando a fila da lanchonete está grande e esquecemos do mocinho do lado de fora que acordou tão cedo, mas mesmo assim não pôs nem um pedacinho de pão na boca. 
Minha indignação não são as seis horas de salto. Não são os calos. Eu posso conviver com eles vez ou outra.
Me preocupa o fato de quase ninguém estar preocupado.
Foragidos, imigrantes? Contanto que não sejam os haitianos no meu Brasil, o problema não é meu, vou me comover em rede social.
Índios? Quem liga pra eles? Eles já têm um dia pra eles no calendário, isso é o suficiente. Não é?
Alguém que ainda não tomou café hoje? Que pena, né. Mas pelo menos emagrece sem precisar tomar shake, olha aí.
A dor do outro? Eu esqueci. Se não é a minha, eu não sinto. Estou cego. Surdo. Mudo.
Estou boquiaberta mas não estou muda. Vou gritar sempre.

O prédio que eu já morei

Todos os dias, de segunda a sexta, eu acordo bem cedo pra apanhar a condução. É a mesma rotina de sempre, as mesmas pessoas, as mesmas carinhas de sono, as mesmas fardas, as mesmas esperanças.
Jaboatão do Guararapes é bem grande, e percorremos praticamente a cidade inteira até chegarmos a Boa Viagem, onde ficam a maioria dos colégios e cursinhos.
Nesse longo percurso, existem muitos prédios. Prédios de todos os tamanhos e de todos os gostos. Casas. Lojas. Postos. Prédios. Mas no meio desse cinza, existe um prédio em especial. É ele!
O Studio Copacabana. Ali, pertinho de tudo. Não dá pra não sorrir por lembrar. Já morei ali. Tinha uns 8, 9 anos. Tanta coisa já vivi! Tanto chão já corri ali. Lembro da minha amiga que me ensinou golpes de judô e da que trocou figurinhas da Floribella comigo. Lembro do jardim de inverno que eu não cansava de admirar. Dos vizinhos apressados e do síndico simpático. Lembro até das vezes que eu chorei, por ter levado tombo ou não. Não moro mais lá, mas lá também é o meu lugar. Eu amo aquele lugar.
E no meio de muros de pedra, aquele é especial.
Você já notou como o amor muda tudo? De repente um prédio não é só um prédio. De repente pessoas não são só pessoas. Não, pessoas nunca serão só pessoas. Passar por aquele prédio me faz lembrar também, como Anna do beijo francês bem colocou, que lar pode ser uma pessoa e não um lugar.
Quando o amor vira seu lar qualquer lugar dá pra amar. Até de manhã bem cedinho, olhando pra um prédio bonito. Não é?

Senhora Lua

A lua. 
Olhar pra o céu me faz sonhar diante dessa imensidão e da minha pequenez. 
Sonho com o dia em que vou ver Deus assim, frente a frente, só pra dizer: - você é mesmo um artista. É uma honra, é imerecido e é lindo fazer parte disso e ser chamada de filha. Você é inspirador, Papai.

Mulambo eu... mulambo tu?

"E o mulambo já voou, caiu lá no calçamento, bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o mulambo ficou lá
Mulambo eu, mulambo tu"
Hoje o dia foi corrido, e os meus fones insistiam em tocar Chico Science pelos rios, pontes e overdrives. Eu sempre amei Chico, mas nunca em toda minha vida eu havia visto tão real aquilo que ele sempre cantou.
Na frente do curso onde estudo havia um rapaz. Um senhor. Caído no chão, se tremendo, sem nenhuma garantia de nada. Supondo apenas o chão. Aquela pedraria quente que não perdoa quem cai.
Lá estava ele, com várias pessoas ao redor. Doeu saber que muitos deles eram apenas curiosos urubus sobrevoando, fotografando e comentando, mas ao mesmo tempo meu coração se encheu de esperança ao ver que naquele meio haviam pessoas que se importavam com o pobre e caído maltrapilho.
Dói não saber como se chama aquele senhor. Dói saber mais tarde que ele, sua esposa e seus filhos foram despejados porque o senhor não tinha como pagar o aluguel. Um senhor epiléptico, que estava internado mas saiu correndo de lá para abraçar sua família que estava desamparada. Esse mesmo homem foi espancado por não ter pago o aluguel da sua casa. Esse homem teve um sério traumatismo craniano. Como doeu a omissão de tantos. Como dói saber que talvez eu nunca mais vá saber como esse homem vai ficar.
Não vai passar em nenhum noticiário. Ninguém vai comentar. Ninguém vai falar. Ninguém. Qual é mesmo o nome dele? Tirem logo ele da rua, está obstruindo a passagem.
Cadê a família dele? Na rua? Pelas pontes? Quem liga pra isso? Eles não têm sobrenome, nem renome, nem renda, beira, nem eira.
Qual a verdadeira história dele? O que ele fez? E o pior: o que nós fazemos?
Eu não sei. Nós não sabemos. Nós ignoramos. Por quê?

Amor, amor...

- Você sabe o que dizem do amor, não é? Ele não acaba...
- Maria, acho que não é à toa que amor rima com dor.
- Por quê, Zé? 
- Ah, o amor é quase isso que dizem. O amor é tudo e muito mais, Maria. Não dá pra resumir num pra sempre que acabou, como o teu, menina. O amor talvez seja pluralidade. Mais do que tudo ainda é o amor. 
- Tá bom Zé, mas ainda não te entendo! Por quê tu me diz que amor tem motivos pra rimar com dor?
- Por que a gente não pede pra sentir dor. Dor não é uma coisa que se deseje, não vem com um pedido formal. Dor é uma coisa engraçada, uma coisa particular. Tem gente que sente mais dor que outros. Mas todos um dia vão sentir dor. E a dor que é dor não passa, a gente só aprende a conviver com ela.
- É verdade, Zé. Talvez o amor seja coragem para uma hora ou outra ter que sentir dor.
- Não, Maria.
- Não?
- Não. O amor em si é a dor. Mas é uma dor bonita, uma dor que vale a pena ser doída. Porque no fim das contas, o verdadeiro amor é também o antídoto contra a dor. Eu te disse, te disse que o amor é tudo.
- Oxe Zé, eu não entendi foi nada!
- Ô Maria, e quem entende o amor?
- Mas bem que era pra entender, não?
- Não, Maria. Se amor fosse pra entender eu saberia, e não sentiria.
- Zé, o amor é um verbo!
- É verdade, Maria.
- Verbo, paráfrase ou sem nexo, não importa. O amor é eterno.

Vasto mundo e poeira das estrelas

Me aprofundando um pouco mais em atomística, fiquei maravilhada com a dimensão incontável do cosmos. Cada um de nós comporta mais de milhões de átomos, aglomerados de moléculas, todos na mais perfeita dança da vida, sincronizando em poesia a perfeição do universo. 
Não tem como não parar e observar tudo de uma maneira diferente. Esse mundo é tão mais bonito do que aparenta ser. Um mundo cheio de neutrinos que não conseguimos ver, de luz que vem e vai há mais de bilhões de anos enquanto estamos ocupados demais discutindo ou pensando em notas e mais notas, de dez ou de cem.
Estudar a natureza faz com que seja impossível ficar apático ao outro. Cada ser é um aglomerado de beleza, de perfeição, de maestria. Não dá para não contemplar.
Tudo é um pequeno milagre costurado em milhões e milhões de galáxias, de vias, de estrelas, da poeira delas e de supernovas. Pensar nisso me faz valorizar o orvalho da flor do meu quintal e seu universo particular; me faz ver essa explosão de cores e vida, reverenciando e agradecendo, aplaudindo em silêncio tanta perfeição e beleza.
Como não parar e admirar? Esse mundo é muito maior do que imaginamos - mas talvez seja isso. Vamos imaginar. A ciência e a imaginação quando dão as mãos são isso: nós.
Obrigada, Deus. Obrigada, mundo.

Do velho dia de janeiro

Eu sinto sua falta quase todos os dias. Sinto mais ainda em saber que talvez nós nunca ficaremos juntos. Teus lábios continuam aqui de alguma maneira, em minhas células de memória, em todas as minhas lembranças. 
Sei que Deus nos escreveu em alguma parte desse livro confuso, em algum parágrafo, em algo dito, não dito ou sentido. Sei que algum dia irei ver novamente teus olhos cor de jabuticaba, daquelas que você colheu em sua outra viagem a São Paulo, a sorrir para mim. Olhos de sorrir coração.
Sei que os anos passam, passaram, passarão, passarinho? Passou. Mas você ficou. Você dentro dos velhos livros, das entradas dos cinemas, das saídas e das vindas. Você dentro do adeus que eu nunca soube dar. Você em mim, poesia para sempre. 
O poema que eu nunca vou ler, mas que sempre vou lembrar.