Em algum lugar, longe.
- Ela se parece tanto comigo. - Parece traduzir tudo o que eu sinto. - Minha nossa, é impossível. É uma clara definição de nós dois. - Não tem como eu ouvir essa música sem lembrar de tudo. - Ah, não. Não aqui. Por quê? Não quero ouvir essa música agora. Eu estava tão bem. Que seja. Vou embora.
Em algum lugar, bom.
- Ah, lembra dessa? Foi o melhor dia de nossas vidas. - Essa é a música da minha despedida de solteiro, e cara... foi incrível. Quando escuto essa música, tudo vem a tona. - Veja, escute! Essa tocou na minha formatura. É tão animada. - Espere, espere, volte a estação! Eu simplesmente adoro essa música. - E para nossas bodas de 50 anos de casados... nada mais justo que a nossa música. Eu te tirei para dançar assim que a ouvi tocar, se lembra, meu bem?
Músicas. Parecem caixas, fragmentos, caleidoscópios. Elas lembram tanta coisa. São tanta coisa. A música do meu casamento. A música do enterro do meu avô; parecia uma lágrima.
Que momento inesquecível.
E através de uma canção ele se petrifica, cristaliza, eterniza. Não importa o quanto não se lembre, quando ela tocar... você vai lembrar.
Incrível, não é? Parece que ela me seguiu até aqui. Nesse bar, nesse carro, nessa rádio. E ela começa a tocar junto com as batidas do meu coração. Uma música.
Para o escritor: a música me inspira, me acalma, me faz pensar. Pensar me faz escrever. Imagine um mundo sem música? Para o compositor: além do meu ganha pão, é um ganha vida - ouvir ela tocando por aí, tocando em olhos, ouvidos, em histórias... ah, a música também é história. Feliz ou triste - ela continua sendo. Ela vai ser.
Aquela música antiga dos seus pais, você colocou pra tocar por acaso, e quando eles ouviram... tudo voltou.
A partitura, a nota, o arranjo... de alguma forma te fazem lembrar, te fazem ser, voltar. A música nunca vai se perder.
Eu não conheço o mundo dos surdos, mas nada me fará desacreditar que lá, de alguma maneira que nós ainda não conseguimos entender, existe música.
Música para os meus ouvidos. Para o meu coração. Dedos, mãos, pés... me faz dançar.
Onde quer que esteja, admirável peregrino, não se esqueça dessa canção. Mesmo que o mundo esteja em silêncio, dance. Dance, por favor... dance. Existe música dentro de você. Dentro de nós.
Ouviu?
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