domingo, 15 de novembro de 2015

Eu não sei se você é o amor da minha vida

Duas e meia da manhã, conferi no relógio. Ótimo. Mais uma noite de insônia. Levantei a procura de algo, de um, de alguém... mas não sabia o quê, quanto, quem. Caminhei devagar até a janela. Luzes de Lisboa. Ela não possui esse título oficialmente, mas, naquele momento, era a minha cidade luz. Sorri. Duas e meia, e a cidade continuava acordada. Pessoas caminhando, pessoas se abraçando, pessoas caindo, pessoas chorando. Como uma confusão orquestrada, era o amor daquela cidade. - Amor. - repeti baixinho. Amor. Desviei o olhar para minha mão esquerda. Aquele anel caro. Tão lindo... eu não sabia qual era o preço do amor, mas com certeza não era aquele. 
Fechei os olhos. - João... eu não sei se você é o amor da minha vida. - Suspirei. Ah, meu Deus... e agora? Mas já estava tudo pronto. Todos os preparativos. Do arroz ao vestido. Oh céus. Estava tudo tão certo. Ele era tão certo. Éramos tão certos. Éramos. Nos conhecemos a seis anos na faculdade de Lisboa, era perfeito. Era mágico, aos olhos de todos. Ele era lindo, educado, inteligente, pessoa boa. - Um príncipe em candura -, sonhava a minha mãe ao falar dele.
Mas não era isso o que eu queria. Não era o que eu sonhava. Eu sei que existem príncipes e princesas, e todos eles possuem seus respectivos finais felizes, mas eu não era nobre. Muito menos princesa. Não queria ser. Não agora. Era tudo tão confuso. 
Caminhei até a gaveta onde guardava as fotografias e revirei até achar o nosso álbum de memórias. E era só aquilo. Mesmo lugar. Mesmo restaurante. Mesmo lanche. Mesma saída. Mesmo filme. Mesmo disco. Só repetia. Mesma frase. Mesmo dia. É que o meu coração cansou de mais do mesmo. Era tudo a mesma coisa, mas eu mudei. Eu deveria estar bem, supostamente bem, faltava menos de dois dias para o que deveria ser o grande dia... mas para mim eram dois dias para o mesmo dia. Eu não podia. Não. Eu não queria estar numa redoma. Eu não queria, eu não podia e eu não posso. Para mim chega. Chegou. 
Fui até a escrivaninha. Papel. Papel de quê? Papel de adeus. Suspiro. Ah, Beatriz... só por esse momento queria ser menos Bea e mais atriz. Achei a caneta. Apanhei as palavras. Eu sinto muito. Eu sinto muito.
- João, meu amor.  Você é tudo o que o mundo sonha. Olhe só pra você, tão bonito, sorridente, tão certo, tão exato. Você é tão constante quanto o sofrimento do Inferno de Dante. E eu sou Beatriz. Mas eu não sou sua. Eu sinto tanto. Eu amo você, João. Amo suas certezas, sua confiança, seus pés no chão. Mas é que todos os dias eu me acordo sentindo que tenho asas. Eu não posso ficar no chão. Eu não quero ficar no chão. Eu preciso voar. Eu preciso ir. É inexato, é sem sentido, e ninguém vai entender... muito menos você. Mas é isso que eu sou. Eu sei. Eu sei que eu amo tudo que você é, e é por isso que eu estou indo. Eu mudei, e eu não quero que você mude por mim. Eu não quero mudar por você. Eu não posso. Me desculpe, eu não vou.
Eu adoraria ser a sua esposa perfeita. Trabalhar de segunda a sexta, chegar mais cedo e preparar a sua janta, te esperar chegar e passar a noite conversando em frente a lareira. Aos sábados, jardins. E aos domingos dormir de mãos dadas no aconchego de nossa rede brasileira. João, eu não estou pronta. Não sei se um dia vou estar. Por favor, isso não é sobre você. É sobre mim. É sobre Deus. É sobre me perder para mais tarde, talvez, me encontrar. Eu não quero que você me espere, porque eu não tenho pressa.  
Te escrevo de perto, mas de longe, como sempre estive. Eu preciso ser longe para me achar de perto. João, eu quero ir embora - não só de você, mas de tudo. Eu só quero sentir a chuva, fechar os olhos e acordar no Japão, na Índia, até na Rússia - quem sabe? O amor da minha vida talvez seja a vida. As pessoas que vem e que vão. Como um trem grande e bonito que nunca para. Eu quero ir com ele. Eu preciso ir. Eu não espero que você me perdoe, não agora. Não espero cartão postal dos meus pais, nem do meu chefe. E tudo bem. Eu só preciso ir agora.  Eu sinto muito. Adeus

Beatriz

- Mas Beatriz... - você pode estar se perguntando. - Você já encontrou ou já sabe quem é o amor da sua vida? - E eu te respondo:
- Eu não sei. Talvez o sentido seja esse. Ou a graça, graças a Deus. Quase mais nada me apressa. E você, já encontrou o seu?


   

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