segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Crônica do bom e velho adeus

Eu não sabia que era adeus. Eu nunca sei quando é adeus. Eu nunca quero saber. Me orgulho de não saber dizer adeus. Às vezes. Outras vezes eu só me retruco e penso no quanto isso é tempo, sentimento e espaço perdido no coração. 
Você disse que me amava naquele dia. Mas é normal, você costumava dizer sempre. Faz uns 20 dias, você disse de novo. E nos despedimos. De novo. Mais do que eu te amo, dizemos adeus. Nós somos feitos de adeus. Talvez sejamos isso. Fotografias do tempo, marca nos dias, mancha de negativo... data embaixo de fotos, lembrete esquecido. 
Talvez a gente seja o que deixou de ser mas às vezes esquece que não é mais. Somos despedida e talvez esse seja o motivo pelo qual nós nunca ficaremos juntos. Porque de despedida em despedida você já foi, eu já me mudei, as fotos ficaram perdidas por aí, em algum carteiro, embaixo de qualquer envelope grande, em qualquer carta. 
Nosso amor é poeira que vez ou outra, graças ao meu nariz sensível, não passa despercebida e me faz espirrar. Nosso amor é aquela música que não toca mais na rádio, mas vez ou outra me pego cantarolando. Nosso amor é um livro que não foi escrito nem revisto, é rascunho que eu joguei fora mas vivo trazendo pra dentro. 
Nosso amor são desenhos que eu nem sei se ainda existem, mas que eu insisto em contornar. Nosso amor é o meu piloto preferido que já não tem mais cor. 
Nosso amor ninguém lembra mais. Que ninguém sabe e nem quer mais saber. Nosso amor é eu e você. Mas eu e você já deixou de ser... então o que é o nosso amor? Nosso amor é querer não saber, mas eu já sei. E você?

22 de janeiro de 2015

sábado, 26 de dezembro de 2015

Uma boa causa

Causas perdidas? Causas casuais, causas causais, causas causadas, causas? Não importa o causo, o amor sempre será uma boa causa. De manhã ou no fim de tarde, o amor sempre terá justificativa. 
O amor sempre terá voz, não importa o quanto você insista em se fazer de surdo. O amor fala mais alto, nem adianta fingir que é mudo. Certa vez eu li em algum lugar que não, o amor não é o que faz o mundo girar... mas o que faz o giro valer a pena. 
Amor ao próximo, livre, amor às coisas simples, simplesmente amor, completamente e complexamente amor, amor amor amor. O orgulho passa. Vaidade vai. Ciúme é passageiro. Briga já foi no trem. O exagero diminui. Os excessos vão. O amor fica. Por causa de quê? Com causa, por causa ou sem causa, o amor sempre terá uma boa causa.


14 de janeiro de 2015

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Sentir

Seria mais fácil não sentir?
Seria, claro que seria. Mas eu me recuso. Me recuso a ser uma pessoa morna, sem sentimentos - me recuso não sorrir com tudo de mim! Eu definitivamente me recuso deixar de sentir frio na barriga, borboletas no estômago, vontade de rir quando não pode, chorar no travesseiro, ser feliz em dobro, de cabeça pra baixo, dançando, cantando, sentindo!
E daí se o mundo é dos que não sentem? Eu não sou daqui mesmo. Sou de onde vem os que sentem, os que amam, os que esperam, os que abraçam, os que gargalham! 
Vou continuar sentindo e sendo coração, e eu sei que essa sempre vai ser a melhor parte de mim.

O meu (teu) Deus afrouxa o meu riso todos os dias... o meu (teu) Senhor me faz amar todos os dias. Meu (teu) Deus é um Deus de sol. Um Deus de abraço apertado, de fé, de vida, de cura. Meu (teu) Deus é um Pai suave... um Pai que floresce em cada detalhe dia após dia, todos os dias. O meu (teu) Deus é o Deus que criou a Lua de noite pra que eu não pudesse sequer pensar em me perder na escuridão... meu (teu) Deus desenhou as estrelas, os planetas! O meu (teu) Deus adora me ver sorrir... e se eu prestar atenção, quando eu sorrio em silêncio posso senti-Lo sorrindo comigo. 
O meu (teu) Deus coloca esperança nos meus pés, fé nas minhas mãos e amor no meu viver... o Deus que eu conheço é diferente desse Deus que dizem que é tão carrancudo, tão distante, tão longe... o meu (teu) Deus vive do meu lado... está nas nuvens, no canto dos pássaros... está no riso contido da criança que passa cantando na rua, no barulho das ondas que quebram em cada praia, na mocinha que ajuda a velhinha a atravessar uma rua, na esquina, na avenida... 
Deus está presente em tudo na nossa vida... Deus se importa com cada segundo do meu dia. Do seu dia. Deus é contramão da escuridão... oposto de preconceito, de dor... Deus é paz. Paz que excede todo e qualquer entendimento. 
Deus é luz que desatina e brilha. Luz que ilumina. Mas antes de tudo... Deus é amor. Não é ódio, não é guerra, não é cegueira. Deus é muito mais do que isso. 
Mas um pouco além disso, Ele ama você. Incondicionalmente. Para sempre.


Imagine

Imagine só se ao invés de gastarmos praticamente todo o nosso o tempo apontando os nossos dedos estendêssemos as mãos? Imagine se, por pelo menos um dia, esquecêssemos de gritar tão alto e lembrássemos de ouvir um pouco mais? Imagine se, de repente, o de coração fosse mais bonito que o automático? Imagine se valorizássemos o artesanato? Nossas mãos podem criar tantas coisas bonitas, mas uma das coisas mais lindas é que elas podem entrelaçar-se em outras mãos. É mais bonito quando elas estão dadas do que quando empurram. Imagine só! Imagine se todos fossem aceitos, redimidos, perdoados, sarados. Imagine só fazer parte disso. O mundo num abraço. Lágrimas compartilhadas. Sorrisos unidos. Imagine só, se o amor fosse o mais importante. Imagine se as pessoas se dessem conta de que é só isso que importa. Imagine se todos ouvissem. 
Amor? É, é ele sim! Está batendo a sua porta.

Outro sobre amor

Aos poucos eu aprendi (e ainda aprendo!) a sorrir até nas minhas fraquezas... eu sei que Deus é grande. Sei que Ele é meu Pai! Sei que me faz sorrir todos os dias com o sol, a lua, as estrelas, as crianças felizes e os abraços involuntários. Com o tempo eu aprendi (e aprendo!) que Deus existe num sorriso. Nas mãos dadas. Nos reencontros. No visível, no imprevisto. Nos altos; também tá nos baixos. No perdão, no me desculpa. Deus tá no antigo, mas também tá novo, tá na boa nova! Tá no verde da árvore do meu quintal, no rosa das flores do jardim; tá na palavra, no agir e no silêncio. Tá em você. Tá em mim. Acho que aprendi (e aprendo todos os dias) que Ele sempre vai estar aqui. E meu coração, até na fraqueza, sorri.

O amuleto

O meu avô era ourives. Ele adorava fazer anéis, brincos, pulseiras, colares... era tudo tão bonito, tão brilhante, tão puro... mas não era o brilho que me fazia sorrir. Eram as mãos. Sim, as mãos. As habilidosas mãos do meu vovô, que trabalhavam dia após dia fazendo aquele colar que hoje é o meu preferido de todos no mundo. Simplesmente porque foi ele quem fez. Toco naquele cordão e o sinto próximo a mim. Essa noite eu não estava usando o colar. Essa noite eu fechei os olhos e precisei de um abraço. Mas não um simples abraço. Era do meu verdadeiro Pai que eu precisava. Eu precisava de Deus. Instintivamente, como eu faço com o colar do meu avô, procurei algum amuleto que me fizesse sentir que o meu Pai estava ali. Nada. Não tinha cordão. Nem brincos. Nem uma pulseira. Respirei fundo. Era maior do que tudo aquilo. Maior do que qualquer lembrança, maior do que qualquer visão, do que qualquer toque. Eu não vi. Eu não toquei. Mas eu tinha certeza de que Ele estava ali. Eu tenho certeza de que Ele está aqui. Tão certo quanto as estrelas pendendo no céu, quanto o sol que vai brilhar amanhã, mais certo do que tudo. Ele prometeu. Eu sabia. De repente, sem mais nem menos, eu senti. É Ele! É Ele! Sorri. Não pude deixar de agradecer. O meu amuleto é o amor. Não dá pra agarrar, é grande demais! Mas olha só pra isso, independente disso, o amor cabe em mim! Meu Deus cabe em mim. Meu Deus. Eu não mereço, mas Ele sempre vai estar aqui. Sempre.

A menina que sorria com livros


Li num livro uma vez o moço dizendo pra sua preciosa e linda filhinha: "com um sorriso desses... você não precisa de olhos". Intuo que ele seja cheio de verdade ao dizer isso. Com um sorriso, eu nem olho para os olhos... mas espere um minuto. Pare pra observar, já parou pra pensar em como os olhos se tornam pequeninos e espremidos quando se sorri? É que talvez o senhor Hans Hubermann estivesse e esteja certo ao desenhar sorrisos... eu não preciso de olhos para sorrir. Eu não preciso ver. Um dia faz sol, dia claro... no outro faz chuva, dia chuvoso, tudo nublado. Mas aprendi mais tarde que com um sorriso... eu não preciso de sol. Nem de olhos. Eu simplesmente sorrio. Só rio.

12 de outubro



Eu nunca vou deixar de ser criança! Nunca vou me negar o sorriso, o sonho e a esperança. Não vou deixar que se apague o brilho no meu olhar, aquela vontade de mudar o mundo, a fé nas pessoas, a vida em papai do céu, o passo firme, a vida leve! Nunca vou deixar de querer ser feliz. 
Quero poder sempre rir, rir muito alto e com besteira! Quero me sujar de picolé de morango, correr na praia, ter olhos que enxerguem o melhor das pessoas e um coração que possa a cada dia se tornar maior e mais humilde mesmo que eu seja tão pequena! Não vou me encarcerar na seriedade e no cinza! Eu não! 
Eu quero a grama verde, o céu azul, as nuvens bonitas de formatos engraçados, o quintal do tamanho do mundo, as lembranças inesquecíveis, a vida num sorriso! Quero amor. Quero ser amor! 
Eu sou criança pra sempre.

Flor e ser


É que não dá... desculpem senhores, eu não consigo. Com licença mundo, eu não quero nem tentar. Não me contenta andar se eu posso voar. Não me conforma o incolor se eu posso ser flor. Sou flor. Pequena flor. Vou florescer onde Deus me plantou. Que eu germine em flor, semente de amor. Que apesar de toda dor eu possa sorrir semente. Que eu possa colorir somente. Que eu aprenda a cultivar sorrisos até nos terrenos mais frios. Eu quero germinar. Quero ser amor até onde parece não dar. Serei sempre pequena, mas os meus sonhos são grandes. E quer saber? Que se ame!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A quinta-feira mais bonita

Hoje, como toda quinta-feira, eu volto pra casa à tarde depois do colégio, mas hoje foi diferente... no meio de tanta gente apressada, entre tanta correria, no meio de tantos relógios, buzinas, carros, caras fechadas, estresse e dor de cabeça... tinha uma senhora. Ela viu o que tanta gente, por ter tanta pressa, não conseguiu ver. Na rua tem vários cachorros... pessoas, cachorros, gatos, seres vivos que vivem à mercê de tanta correria... alheios a tanto egoísmo e a tanta velocidade. 
Num mundo onde todos olham mas ninguém vê, uma senhora os viu. Viu dois cachorrinhos na rua morrendo de fome e no meio de tanta gente apressada, carrancuda e cética... ela parou. Ela parou e veio com um saco cheio de ração e duas vasilhas pra aqueles animaizinhos que não têm culpa de onde nasceram, de como vivem e no meio em que existem... no meio do egoísmo e do egocentrismo, ela escolheu se ajoelhar e alimentar aqueles dois animais. 
Ela escolheu amar. E eu não pude deixar de sorrir. No meio de tanta gente séria, ela conseguiu ser sorriso. Ela conseguiu ser amor. Ela me fez reafirmar mais uma vez que as coisas simples sempre vão ser as mais bonitas... ela me fez ver mais uma vez que o amor existe, existiu e que sempre vai existir... mas o amor começa de dentro pra fora. Não o contrário. 
O amor é esquecer um pouquinho da palavra "eu" e começar a dizer "nós". O amor talvez esteja costurado nos dias mais bonitos, mas com certeza está bordado no cotidiano que esquecemos de ver... e essa é a beleza dele, não é?

18 de setembro de 2014

Quando os olhos se fecham


A morte é irônica. Tão ríspida. Tão rápida. Tão simples. Complexa. Tão triste quando ela nos força a ver quem se ama partir... tão poética quando todos se abraçam. Quando depois de toda a escuridão restam os abraços, o pranto, o silêncio, a contenda, as mãos dadas... porque até depois da morte, ainda existe o amor. Sim, o amor. 
Amor que consegue ser mais forte do que essa barreira de interrogações que chamamos de morte. Depois que se morre, os que ficam se amam. Se unem. Mesmo que apenas em um sétimo dia, mantém-se todos juntos. Coração com coração. É que apesar de tanta dúvida, de tanta lágrima e de tanta pergunta, quem ficou continua ali. De braços abertos. Até Deus sabe quando. E eu agradeço a Ele por ter a oportunidade de abraçar e de ter abraçado todos aqueles que amo. 
Porque no fim de tudo é só isso o que deixamos. Tudo isso que deixamos. Sementinha pequena. Cabe num olhar. Mas tão grande quanto o mar. Deixamos o amar.

29 de novembro de 2014.
Para Jefferson Feliciano. Com amor e saudade.

Pés

Ele sempre insistia nos chinelos. Ela amava sapatos com cadarço... talvez por causa do laço bonito que ela sempre fazia quando os amarrava. Ele gostava dos chinelos porque se sentia livre. E entre cadarços, chinelos, alpargatas e sapatos, quando estavam descalços é que os dois se davam bem. Porque não importava se ele preferia os chinelos, se ela amava os sapatos... os pés deles sempre seguiam o mesmo caminho, e essa era a melhor trilha daquela bonita e diferente anatomia que os unia.
É tão difícil olhar a tristeza nos olhos e sorrir. Tão difícil se levantar depois de ter caído tão feio. Mais difícil ainda é permanecer se levantando. Tão difícil ser paciente e bondoso. Difícil não ser ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso. Às vezes fica difícil demais não fraquejar e não acabar sendo grosseiro nem egoísta; não ficar irritado, nem guardar mágoas. 
É difícil todos os dias, dia após dia, não desistir, porém suportar tudo com fé, esperança e paciência. Mas de que vale o que não é difícil se é passageiro? De que vale o que é fácil se o fácil durará pouco? Qual o valor de desistir se o que nos espera é o eterno? Ser amor talvez seja uma das coisas mais difíceis do mundo. Mas ele vem bordado de eternidade. Temos a eternidade para vivermos aprendendo. É difícil amar, mas com ele tudo fica mais fácil. Ele é fiel, é esperançoso. Ele é tudo isso e simplesmente isso pra caber em mim e em você. Você aceita caber no amor?

Sonho sonhado junto é só mais um sonho?

Eu sinceramente me recuso a acreditar que vivo em uma sociedade onde devo andar olhando para os lados. Onde não posso falar e nem sorrir para um estranho, pois o meu senso comum me alerta que ele pode ser um um sequestrador, um louco... um maníaco.
A que ponto chegamos? Que mundo é esse onde o amor foi enterrado vivo? Que sociedade é essa onde tenho que andar com medo até de olhar na janela? Onde foram parar os sorrisos? Cadê as pessoas boas? Cadê aquela inocência e aquele quê de infância? Onde está o simples e o belo, que antes eram vistos como o mais importante? Hoje quase tudo o que vejo são pessoas e coisas ruins. Hoje eu não posso sair nas ruas e desejar "bom dia" a um estranho sem nenhum receio. 
Que mundo é esse onde ninguém respeita ninguém? Que mundo é esse onde a lei é olho por olho e dente por dente? Eu me pergunto onde foi parar a compaixão. Onde foi parar o amor ao próximo? Onde está o bem? Cadê a verdade? Onde estão os valores? E os bons corações? Por quê se esqueceram? 
Eu prefiro olhar bem no fundo do meu coração e procurar ali o melhor de mim. Vestir o meu melhor sorriso e me cobrir de esperança por um mundo mais bonito. Um mundo onde as crianças possam correr felizes pela rua, empinando pipa e brincando de esconde-esconde, e que eu possa ver no sorriso de cada uma delas a pureza e a simplicidade dignas de uma criança. Dignas de um ser humano. 
Quero viver para ver um mundo onde as pessoas possam ser gentis com as outras sem pedir nada em troca. Quero ver um mundo onde valha a pena acreditar que, no fundo, as pessoas possam ser realmente boas. E que cada um de nós podemos e devemos cultivar o amor, antes e acima de tudo, dentro de nós mesmos, pois o amor começa de dentro pra fora. 
Olho para o céu e acredito que um dia tudo será mais bonito. Acredito que um dia poderei andar sem medo e sorrir não só com os lábios, mas com a alma. Até lá eu sonho, mas com plena convicção de que um sonho sonhado junto não é só mais um sonho: é uma realidade.

11 de abril de 2013

Garrafas salgadas

Esta tarde fui à praia e me entristeci muito com as cenas que vi. 
Era fim de dia, duas crianças brincavam livremente junto ao mar, quando de repente uma delas arremessa duas garrafas de coca-cola para o fundo. Assim, sem mais nem menos. No início o meu sentimento foi de revolta, mas sei que aquela criança não tem culpa de ter feito aquilo, pois afinal, quem é o espelho dela? Em quem ela se inspira? Quem são seus pais? 
Pensando nisso tudo guiei meus olhos ao resto de toda praia e notei a realidade que eu já esperava: ela estava suja. Completamente imunda. Eram garrafas, plásticos, sacolas, restos de comida, imundície, o puro reflexo de quem vive às margens daquele lugar. As pessoas passavam por ali tranquilamente e não se importavam, nem sequer se queixavam, caminhavam acomodadas com aquela sujeira. Com aquele lixo. Nenhuma delas se dispôs a se abaixar e retirar nem que fosse ao menos uma garrafinha que estava ali. Algumas reclamavam do mau cheiro, mas nenhuma tomou alguma providência para saná-lo. Todos estavam completamente acomodados. 
E aquelas crianças... quem serão quando crescerem? Em quem se inspirarão? Qual será o futuro delas? Será que continuarão a poluir a praia, as ruas e principalmente suas vidas sem nem ao menos terem a real consciência do que estão fazendo? É... mudar é trabalhoso, permanecer inerte é confortável, mais cômodo. Ninguém naquela praia se mexeu. Naquele plano micro todos estavam cegos. Surdos. Mudos. 
Fiz minha parte... minha pequena parte: peguei o meu saquinho de lixo e catei todas as garrafas que pude. Tentei fazer com que o máximo de pessoas vissem. Não por exibicionismo ou benefício próprio, mas na esperança de que alguma daquelas crianças me visse e mudasse de inspiração. E de espelho. 
Eu sozinha não posso fazer nada pra mudar esse mundo, mas eu sei que se fizer minha parte da melhor maneira que eu encontrar, vou conseguir inspirar nem que seja uma pessoa, e isso pra mim é tudo. 
Mudar vem de dentro... é trabalhoso, mas aos poucos, quem sabe, aquela praia (e a nossa vida) um dia não amanheça e permaneça completamente limpa? Orarei pela vida, pelo plano micro, o plano macro e por aquelas criancinhas.
Mas antes de mais nada, farei minha parte.

22 de dezembro, tarde de 2013

Versinho de 2011

Sorria! Porque um dia sem sorrisos é um dia perdido. 
Perde-se amor, perde-se alegria, perde-se a esperança de que não importam as lágrimas, amanhã é um novo dia. Sorria!

domingo, 13 de dezembro de 2015

Krakatoa

É que eu afasto as pessoas. O meu jeito krakatoa - ouvi isso na aula de geografia, o vulcão; nunca ouvi nada tão parecido comigo desde essa aula.
Eu sou assim, explodida. Não queria ser, mas eu sou. E de explosão em explosão, nem todas minhas, tudo se queimou. Se perdeu, foi embora, derreteu.
Eu só queria um lugar onde nada entrasse em erupção - onde eu pudesse deitar sossegada e olhar para as estrelas, que, olhem só, explodiram a tantos anos. Essas explosões até que são bonitas.
Como as estrelas, mesmo de longe, eu queria ver beleza em minha explosão. Queria aprender a explodir amor - e que ela fosse tamanha que alcançasse a todos. Até o céu.
Pensando bem, até mesmo sem vulcanismo, eu queria poder abraçar a minha mãe e pedir desculpas por todas as vezes que explodi errado - você sabe, vez ou outra isso vem do nada. Mas apesar de, é assim: tamanho é o amor que transborda na família.
Estou aprendendo a ser vulcão. Por mais que a lava venha e acabe com tudo o que estava ali, o que vem depois é lindo. Quer dizer, você já viu um solo depois de um agente como o vulcanismo? É sem igual.
Espero que um dia eu saiba explodir só em coisas boas.
Dezoito anos é a idade de explodir gritaria e espinhas, mas eu posso tentar.
Ainda tem muito relevo para modelar - e caminhar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Dois dias atrás.
Estava no extra com minha mãe e minha irmã. E, nossa, como estava cheio! Cheio e decorado, com muitas árvores de natal, guirlandas e um ou dois bonecos de papai noel.
As pessoas, apressadas, passavam rápido fazendo as famosas compras de natal. De um lado para o outro, filas e mais filas, carrinhos cheios, impacientes. Observava tudo em silêncio e com um pouco de pressa, tentando acompanhar os passos de mamãe.
Compramos tudo. E finalmente chegamos ao caixa. Haviam duas pessoas na nossa frente, e esperamos.
E chegou a vez da moça da frente. O cabelo dela estava um pouco desarrumado, ela parecia tão estressada. Continuei olhando.
Na hora do pagamento, a mocinha do caixa avisou que não tinha dinheiro trocado - que estava muito difícil eles conseguirem em qualquer época do ano.
A mulher ficou muito raivosa. Ela começou a falar um monte de coisas, coisas tão ruins para aquela atendente. E em momento algum a atendente se alterou. Com toda a calma do mundo, com cortesia, tentou explicar da melhor maneira possível. Mas a mulher era irredutível.
Um moço que também era atendente chegou para tentar apartar tudo aquilo, e o que eles ouviram? - Chega. Escuta aqui, criatura, me dá logo essas sacolas que eu mesma empacoto minhas compras.
E ela deu. Afrouxou todas as sacolas, e a mulher puxou com grosseria enquanto ainda dizia coisas ruins.
O que eu estou querendo com tudo isso não é apontar para essa mulher que se irritou no caixa. Eu só queria que pensássemos um pouco sobre o verdadeiro significado do natal. Passamos tão apressados pelos supermercados, procurando deixar tudo perfeito para a ceia, mas esquecemos do motivo de ela existir. Do que ela representa.
Um atendente é tão importante. Um garçom faz tanta diferença. Aquele que nos serve também merece ouvir palavras de amor. Ele merece a nossa paciência, as nossas desculpas.
Em todos os lugares tenho escutado as mais lindas cantigas de natal. Nos shoppings, ruas e praças. Todos falando de amor e união - por quê é tão fácil cantar e difícil viver?
Não precisamos ser iguais. O natal não é lindo apenas pelas luzes, por favor. A luz precisa estar em nós. Precisamos reencontrar o sentido.
Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.
(Marcos 10:45)

sábado, 5 de dezembro de 2015

E quando aquele que você mais ama é também a sua maior decepção?

Não sei quantas vezes um coração pode se partir e continuar batendo de uma maneira segura, mas com certeza esse número deve ter sido ultrapassado ao menos cinco vezes, apenas nessa semana.
Eu tenho os olhos dele. E o nariz também. As pessoas dizem que quando sorrimos é quase como se fôssemos idênticos. Ele adorava escrever quando mais novo, e, veja só... eu ainda adoro escrever.
Graças a ele eu já li tudo de Machado, de Vinicius e de Drummond - também por ele toca no meu fone, incansavelmente, o bolero de Ravel.
Mas principalmente, com todas as forças, notas e letras, é graças a ele que minha história está toda embaralhada.
É estranho, um dia o seu maior orgulho Se torna a sua pior decepção. Eu imaginava, quando mais nova, que as máscaras eram apenas nos teatros, nas comédias, nas festas. Vez ou outra percebo que me enganei diversas vezes.
Uma das pessoas que eu mais amo usa uma, duas, três máscaras. E cada uma delas, ao cair, derrubava um pedacinho de mim. Um pedacinho de nós.
Ele era tudo o que eu podia abraçar. Tudo o que era certo. Tudo o que ia, mas sempre voltava. Era todo aquele bom exemplo, uma superação bonita, tudo o que era belo.
Eu nem sempre acreditava em heróis de capa, mas eu acreditei nele.
Hoje em dia ele vive por aí, em algum lugar, eu não o vejo mais.
Sinto falta do que fomos, do que éramos. Saudade das coisas mais simples e bobas. Dá saudade de acreditar em tudo o que ele me dizia - hoje eu sei que foi tudo mentira. Eu sei que eu vou amá-lo para sempre - e mais um dia.
Mesmo que ele nunca tenha me amado de verdade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A crônica do verdadeiro (e errado) amor

Todos já tivemos um. Ah, você sabe... está bem ali, no título. O verdadeiro - mas errado - amor.
Aquele que te faz perder a respiração enquanto as pernas tremem e que, assim de repente, faz o seu estômago parecer um depósito de casulos onde desabrocham e dançam milhares de borboletas. Não exagero: milhares. Você já teve esse amor, não é? Eu também.
Escrevo para esse amor quase todos os dias, mesmo sabendo que ele não irá ler. Mesmo entendendo que o nosso tempo já acabou faz tempo - mesmo reconhecendo que nossas vidas de alguma maneira precisam ir em frente. Parece simples, não é? Quem dera.
O verdadeiro e errado amor é mais complexo do que isso. Todos sabem que não foi feito para dar certo. Até nós sabemos; nós só não reconhecemos. Batemos o pé, choramos - ah, como choramos -, fazemos birra... chegamos até a dizer: "O amor é o suficiente". E pronto. Mas nesse caso, querido leitor... quase nunca é. É amor, mas é errado. A milhares de quilômetros, errado. Ao lado, mas errado. O tipo de amor que machuca, mas que a gente quer sentir. O amor que te faz brigar com todos que discordem dele, até mesmo quando é o seu irmão, a sua mãe, aquele seu sábio tio...
O tipo de amor que parece uma raiz aérea, tentando sobrevoar o terreno alagado, buscando forças, devagar mas sempre, procurando viver. Sobreviver.
Ah, o verdadeiro e errado amor... aquele que vive nas mentes de todas as senhoras e senhores que já tiveram dezesseis. Aquele que te dá coragem de cruzar cidades, de fugir de casa, trocar de nome e até - olhe só! - sobrenome. O amor que te faz pegar o cofrinho com moedas de um real, contar uma a uma, só pra ver se tem o suficiente para os dois irem embora.
O verdadeiro e errado amor é aquele que nunca desiste nem nunca desistiu, ele só adormeceu. Acho que todos já tivemos um; é só fechar os olhos e lembrar. Quantas cartas rabiscadas, quantas lágrimas e gritos, só por causa de um sorriso. Aquele sorriso que tinha luz de paraíso, aqueles minutos, aquelas horas... até meses. Sim. O verdadeiro e errado amor é paciente. O tempo parece não passar. Mas infelizmente ele passa... e esse amor tenta sobreviver - ele consegue, mas é empurrado, encaixotado, embrulhado pelo medo - o "será que"? Pela dúvida. Pelo talvez. Pelo mais tarde. Pelo não.
E logo esse verdadeiro e errado amor vira cartão postal escondido embaixo de todos aqueles livros e diários da adolescência; se transforma em conselho para os filhos, em memória através de músicas.
Fotografia velha. O bom e velho amor.
O verdadeiro, mas errado amor.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Anjos

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam...
(Clarice Lispector)

Eu era bem nova. Tinha uns seis, sete anos. - Quase sete, eu costumava dizer, muito feliz, quase orgulhosa. Afinal, não é isso que quase todas as crianças sonham? Ficar mais velhas... existe uma mágica diferente em ser mais velho, ou a gente achava que existia. Mas isso era um assunto para alguns anos mais tarde...
E lá estava eu, no pequeno parquinho da cidade, um dos meus lugares preferidos no mundo, simplesmente porque aquele parque era diferente - de todos os parques do mundo, aquele era o meu parquinho. Meu velho e conhecido. Era diferente também pelo fato de ficar bem no alto da serra que era próxima a minha antiga casa - e se a gente olhasse com cuidado, víamos as nuvens nascendo, criando forma, indo, vindo. Era tudo tão lindo.
Como em todo o parque, esse também tinha balanços, escorregos, areia, crianças, sorrisos... ah, as risadas! Aquela gritaria que fazia qualquer um sorrir junto - espantava qualquer tristeza, até a do meu pai, que sempre me acompanhava quando eu ia ao parquinho.
Em geral ele era uma pessoa solitária, o papai. Trabalhava tanto, se esforçava tanto, fazia sempre tudo, recebia quase tão pouco. Ele não era de reclamar, mas era triste. Triste até chegar em casa. Sempre às cinco da tarde. Era pontual. Ele chegava, me abraçava, me rodopiava pelo ar como uma bailarina, e fazia o mesmo convite: - vamos ver os anjos no parquinho? - e eu sorria. - vamos, papai! Vamos!
Ele segurava a minha mão e cuidava de mim. Olhava e prestava atenção, mas me deixava cair vez ou outra. - Oh filha, precisa cair vez ou outra pra se levantar de novo. Se ralou? Chega aqui, dá um abraço no papai. - era o abraço mais aconchegante de todos. O meu melhor amigo de todos. De todos, o meu papai. Haviam más notícias, vez ou outra era difícil, mas eu sabia que estaríamos sempre juntos.
E então entardecia. Quase seis horas. E chegava a hora... - vem, filha! Vem pra o braço! Vamos ver os anjos! - e eu corria para ele. Ficávamos ali admirando. Os passarinhos voltavam para suas casas. As nuvens mudando de azul para amarelo e laranja e rosa. Rosa era a minha cor preferida de nuvem. A brisa subindo e descendo. As luzes se acendendo lá embaixo, no nosso vilarejo. Mas nós só conseguíamos olhar para o céu. Procurando os anjos, segundo o papai.
Eu nunca os vi, mas ele me garantia que eles estavam ali. Estavam sim.
- Filha, não deixe que ninguém te diga que os anjos não existem. Eles existem sim. Eles estão em você. Estão em mim. Os anjos estão sempre ao nosso redor. Ali, está vendo? - ele apontava. - Aquela é a estrela Dalva. Dali eles também podem nos ver. Daqui nós podemos chamar. Eles sempre vão nos ouvir. Sempre vão estar aqui. Sempre, não importa o que aconteça. Como a mamãe. - Ele colocava a mão no lado do coração. Pus também. - Como a mamãe. - Sorri.

Os anos se passaram. O papai já foi morar numa estrela. A mamãe também. Mas quer saber? Eu ainda sei que os anjos existem. Cheguei tarde do trabalho, exausta... mas olhei para o céu. E antes olhei para as pessoas ao meu redor. Eu sei que o mau humor existe, o dia ruim também... mas também conheço os sorrisos. O bom dia, o abraço inesperado, a gratidão de olhos fechados, o "eu acredito" - e eu resolvi acreditar nesses pequenos grandes anjos. Eles não estão apenas no céu, na estrela Dalva... eles estão aqui. Estão em você. Estão em mim. Anjos. É, eles existem.
Obrigada, papai.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Salut, Marin!

Comecei o dia na companhia duma bela alvorada. Digo, bela mesmo. Havia passado a noite inteira acordada, observando um por cento do universo que estava na palma da minha mão. Estava. As cores das hortênsias e orquídeas no jardim que fiz questão de cuidar no verão passado. O latido desesperado dos cachorros da vizinhança, protestando por liberdade. "Liberdade!", latiam em coro, eu imaginava. E sorria. É, acho que todos sonham com essa tal liberdade, não é? Sinceramente, naquele momento eu não sonhava. Nem dormia. Abaixei a cabeça e pude observar em cima da velha mesinha perto da estante a prova da despedida do meu amado, que dormia tranquilo logo ao lado. O meu marinheiro. Ele queria os sete mares. Ele queria abraçar o mundo e sentir-se abraçado pelo universo. Ele queria o infinito e o além. Eu só queria ele. 
Na noite anterior bem que tentei dizer isso para ele, mas marinheiros têm a alma livre. Eles precisam velejar. Remar. E infelizmente os ventos sopravam para a direção oposta a mim. Os ventos sopravam para o mundo. Meu bravo marinheiro queria desbravar o mundo. De vez em quando a mãe dele nos ligava e chorava a noite inteira insistindo para que ele ficasse. Para que ele fincasse. Literalmente. Mas ele era um marinheiro, e os ventos dos marinheiros hora ou outra sempre decepcionam. A imensidão azul não aceita amor. E eu achava puro egoísmo do mar querer ele quando existiam tantos no mundo. Com tantos no mundo, por que ele? Por quê o meu marinheiro? Entre lágrimas e retóricas, eu fazia o meu oceano particular. Mas ele não queria o meu oceano nem meu mar. Ele queria o mundo. Queria os mares, pois já havia aprendido a dizer adeus. Ele só sabia dizer adeus. Quando estávamos juntos, entre um beijo e um sorriso, ele dizia que voltaria. Mas eu sabia que era mentira. Ou talvez não fosse mentira. Talvez ele quisesse. Mas não, ele nunca voltaria. Abaixei a cabeça mais uma vez, acrescentando mais umas gotas ao meu Oceano Pacífico; ao oceano que eu queria que fosse pacífico. Olhei para o lado e vi aqueles pequenos olhos azuis me fitando. Olhos que sorriam, enquanto eu protestava em silêncio. O oceano roubou ele de mim. O meu amor. O meu marinheiro.
 Depois da costumeira ducha matutina, ele se vestiu. Enquanto ele estava ali, engomando mais uma vez cada peça de seu uniforme, toquei os lábios dele minuciosamente fazendo-o parar de arrumar aquela roupa que eu tanto odiava. Tocava-lhe os lábios como se fosse a última vez. Era a última vez. A última vez. Uma lágrima teimosa rolou por minha face. Agora estava de frente a ele. Observando cada expressão de sua face. As sobrancelhas sempre inquietas. Uma em cima, outra embaixo. A boca sempre se mexia, mesmo quando ele não queria me dizer nada. Os olhos sempre atentos. Eu sempre seria uma pobre guerreira desarmada diante daqueles olhos. Olhos que sorriam. Olhos que prometiam. Olhos inquietos, que se desviavam, que fugiam. E fugiram. Conversávamos mais com os olhos. Até mais que a própria boca. A gente nunca precisava de palavras. Sorríamos no olhar. Conversávamos no olhar. Amávamos num simples e único olhar. Mais uma lágrima clandestina em meu olhar silenciosamente descia pelo meu rosto. Molhava o meu rosto. Era o meu oceano. Ele me abraça, beija minha cabeça, me faz um cafuné rapidinho, um carinho e termina de se arrumar. Termina de se arrumar para o adeus. Perto da porta, observei-o partir. Aquele ar de decidido. Aquele quê de mistério e bravura que eu tanto admirava. Estava partindo. E partiu meu coração. Fechei os olhos e cantarolei a famosa cantiga para que apenas o meu oceano escutasse. Meu oceano que se foi. Que secou. Oceano que partiu e deixou comigo apenas água.

"Salut, marin! Bon vent à toi

Tu as fait ta malle, tu a mis les voiles

Je sais que tu n'reviendras pas

On dit que le vent des étoiles

Et plus salé qu'un alizé

Et plus salé qu'un alizé

Plus entétant qu'un mistral

Plus entétant qu'un mistral

Au revoir marin, tu vas manquer

Au revoir marin, tu vas manquer

Tes yeux bleus, ton air d'amiral



Salut marin bon vent à toi

J'te dis bon vent mais ça m'fait mal

Car marin tu emportes avec toi

Toute notre enfance de cristal

Et notre jeunesse de miel

Et notre jeunesse de miel

Et tous nos projets d'arc en ciel

Et tous nos projets d'arc en ciel

Et du Cap Horn à Etretat,

Du Havre aux plages de Goa

L'horizon à toi se rappelle



Vous, les marins, vous êtes ainsi

Vous ne savez rien d'autre que partir

Vous, les marins, vous êtes cruels

Vous nous laissez au large de vos souvenirs

Vous, le marins, vous êtes sans coeur

Vous préférez la mer à vos amours

Et les sirènes de chaque port

À vos mères, à vos femmes et à vos soeurs.



La vie marin passe sans bruit

Comme autrefois tout en secoussses

Quelquefois c'est la houle et le roulis

Et quelquefois la vague est douce

Alors je fais comme il se doit

Alors je fais comme il se doit

Je vis tranquille au bord d'un précipice

Tranquille au bord d'un précipice

Marin tu serais fier je crois

Marin tu serais fier je crois

Je vis de face, le vent aux trousses

Tout comme toi."

Salut, marin... bon vent à toi. Je veux savoir qu'un jour vous reviendrez. Je t'aime. Melhor dizendo... eu amo você.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A sua música

Em algum lugar, longe.
- Ela se parece tanto comigo. - Parece traduzir tudo o que eu sinto. - Minha nossa, é impossível. É uma clara definição de nós dois. - Não tem como eu ouvir essa música sem lembrar de tudo. - Ah, não. Não aqui. Por quê? Não quero ouvir essa música agora. Eu estava tão bem. Que seja. Vou embora.
Em algum lugar, bom.
- Ah, lembra dessa? Foi o melhor dia de nossas vidas. - Essa é a música da minha despedida de solteiro, e cara... foi incrível. Quando escuto essa música, tudo vem a tona. - Veja, escute! Essa tocou na minha formatura. É tão animada. - Espere, espere, volte a estação! Eu simplesmente adoro essa música. - E para nossas bodas de 50 anos de casados... nada mais justo que a nossa música. Eu te tirei para dançar assim que a ouvi tocar, se lembra, meu bem?
Músicas. Parecem caixas, fragmentos, caleidoscópios. Elas lembram tanta coisa. São tanta coisa. A música do meu casamento. A música do enterro do meu avô; parecia uma lágrima.
Que momento inesquecível.
E através de uma canção ele se petrifica, cristaliza, eterniza. Não importa o quanto não se lembre, quando ela tocar... você vai lembrar.
Incrível, não é? Parece que ela me seguiu até aqui. Nesse bar, nesse carro, nessa rádio. E ela começa a tocar junto com as batidas do meu coração. Uma música.
Para o escritor: a música me inspira, me acalma, me faz pensar. Pensar me faz escrever. Imagine um mundo sem música? Para o compositor: além do meu ganha pão, é um ganha vida - ouvir ela tocando por aí, tocando em olhos, ouvidos, em histórias... ah, a música também é história. Feliz ou triste - ela continua sendo. Ela vai ser.
Aquela música antiga dos seus pais, você colocou pra tocar por acaso, e quando eles ouviram... tudo voltou.
A partitura, a nota, o arranjo... de alguma forma te fazem lembrar, te fazem ser, voltar. A música nunca vai se perder.
Eu não conheço o mundo dos surdos, mas nada me fará desacreditar que lá, de alguma maneira que nós ainda não conseguimos entender, existe música.
Música para os meus ouvidos. Para o meu coração. Dedos, mãos, pés... me faz dançar.
Onde quer que esteja, admirável peregrino, não se esqueça dessa canção. Mesmo que o mundo esteja em silêncio, dance. Dance, por favor... dance. Existe música dentro de você. Dentro de nós.
Ouviu? 

domingo, 15 de novembro de 2015

O primeiro encontro

Eu era nova. Tinha uns quinze pra dezesseis anos. Ele era mais ou menos um ano mais velho que eu. Nos conhecíamos há uns 10 anos. Eu sempre fui apaixonada por ele, mas nunca tive coragem de admitir. No fundo eu podia sentir que ele também sempre fora apaixonado por mim, mas como eu... nenhum de nós tinha coragem de admitir. Passaram-se esses dez anos, e ele finalmente me convidou para dar uma volta por aí. Eu adorava sorvete. Ele também. Éramos o tipo típico alucinadamente louco por fast foods. Uma geração coca-cola alternativa! E ele havia me chamado pra sair. 
Como eu deveria me sentir? Deveria sorrir? Dizer "olá"? O que é que pode ou o que não pode se falar num primeiro encontro? Digo, primeiro encontro mesmo. Eu tinha quinze anos mas nunca havia saído sozinha com um garoto. Muito menos com aquele garoto de dez anos atrás. Que roupa? Muita maquiagem? Não, nada de muita maquiagem, odeio excesso de maquiagem! Um vestido? Salto alto? Eu era péssima usando salto! Short? Short. Blusa? Camiseta? Cardigã? Rosa? Verde? Amarelo? Pulseira? E no que ele estaria pensando naquele momento? Calça, tênis e camiseta? "Ah, para os homens é sempre tão mais fácil...", pensei. Repensei. "Nada de salto! Essa maquiagem é um espalhafato! Não vou usar vestido. Não. Hoje eu vou ser quem eu sempre fui e quem sempre serei quando estiver ao lado dele: eu." Um eu um pouco mais nervoso que o normal... mas ainda assim, seria eu! 
Coloquei um short, uma blusa, meu sapato preferido e uma bolsa legal. Me olhando no espelho, pude brincar de ser eu. Daí pensei... "É. Com ele eu posso realmente ser eu. Sem fingir ter um, dois ou três eus. Eu sou simplesmente eu.". Sorri. Conferi o relógio. Quase seis. O coração que tinha se aquietado voltou a dançar, e dançava rápido! De repente minhas pernas tremem. Arrumo a blusa uma vez. Duas. Três. Coço o pescoço. Olho o relógio mais uma vez. Suspiro. Corro na cozinha. Água, água! Um copo d'água pra esse coração descansar! Me olho no espelho, dou um último suspiro... 
A campainha toca. É ele. E de repente meu coração se aquieta... e sorri novamente.

Eu não sei se você é o amor da minha vida

Duas e meia da manhã, conferi no relógio. Ótimo. Mais uma noite de insônia. Levantei a procura de algo, de um, de alguém... mas não sabia o quê, quanto, quem. Caminhei devagar até a janela. Luzes de Lisboa. Ela não possui esse título oficialmente, mas, naquele momento, era a minha cidade luz. Sorri. Duas e meia, e a cidade continuava acordada. Pessoas caminhando, pessoas se abraçando, pessoas caindo, pessoas chorando. Como uma confusão orquestrada, era o amor daquela cidade. - Amor. - repeti baixinho. Amor. Desviei o olhar para minha mão esquerda. Aquele anel caro. Tão lindo... eu não sabia qual era o preço do amor, mas com certeza não era aquele. 
Fechei os olhos. - João... eu não sei se você é o amor da minha vida. - Suspirei. Ah, meu Deus... e agora? Mas já estava tudo pronto. Todos os preparativos. Do arroz ao vestido. Oh céus. Estava tudo tão certo. Ele era tão certo. Éramos tão certos. Éramos. Nos conhecemos a seis anos na faculdade de Lisboa, era perfeito. Era mágico, aos olhos de todos. Ele era lindo, educado, inteligente, pessoa boa. - Um príncipe em candura -, sonhava a minha mãe ao falar dele.
Mas não era isso o que eu queria. Não era o que eu sonhava. Eu sei que existem príncipes e princesas, e todos eles possuem seus respectivos finais felizes, mas eu não era nobre. Muito menos princesa. Não queria ser. Não agora. Era tudo tão confuso. 
Caminhei até a gaveta onde guardava as fotografias e revirei até achar o nosso álbum de memórias. E era só aquilo. Mesmo lugar. Mesmo restaurante. Mesmo lanche. Mesma saída. Mesmo filme. Mesmo disco. Só repetia. Mesma frase. Mesmo dia. É que o meu coração cansou de mais do mesmo. Era tudo a mesma coisa, mas eu mudei. Eu deveria estar bem, supostamente bem, faltava menos de dois dias para o que deveria ser o grande dia... mas para mim eram dois dias para o mesmo dia. Eu não podia. Não. Eu não queria estar numa redoma. Eu não queria, eu não podia e eu não posso. Para mim chega. Chegou. 
Fui até a escrivaninha. Papel. Papel de quê? Papel de adeus. Suspiro. Ah, Beatriz... só por esse momento queria ser menos Bea e mais atriz. Achei a caneta. Apanhei as palavras. Eu sinto muito. Eu sinto muito.
- João, meu amor.  Você é tudo o que o mundo sonha. Olhe só pra você, tão bonito, sorridente, tão certo, tão exato. Você é tão constante quanto o sofrimento do Inferno de Dante. E eu sou Beatriz. Mas eu não sou sua. Eu sinto tanto. Eu amo você, João. Amo suas certezas, sua confiança, seus pés no chão. Mas é que todos os dias eu me acordo sentindo que tenho asas. Eu não posso ficar no chão. Eu não quero ficar no chão. Eu preciso voar. Eu preciso ir. É inexato, é sem sentido, e ninguém vai entender... muito menos você. Mas é isso que eu sou. Eu sei. Eu sei que eu amo tudo que você é, e é por isso que eu estou indo. Eu mudei, e eu não quero que você mude por mim. Eu não quero mudar por você. Eu não posso. Me desculpe, eu não vou.
Eu adoraria ser a sua esposa perfeita. Trabalhar de segunda a sexta, chegar mais cedo e preparar a sua janta, te esperar chegar e passar a noite conversando em frente a lareira. Aos sábados, jardins. E aos domingos dormir de mãos dadas no aconchego de nossa rede brasileira. João, eu não estou pronta. Não sei se um dia vou estar. Por favor, isso não é sobre você. É sobre mim. É sobre Deus. É sobre me perder para mais tarde, talvez, me encontrar. Eu não quero que você me espere, porque eu não tenho pressa.  
Te escrevo de perto, mas de longe, como sempre estive. Eu preciso ser longe para me achar de perto. João, eu quero ir embora - não só de você, mas de tudo. Eu só quero sentir a chuva, fechar os olhos e acordar no Japão, na Índia, até na Rússia - quem sabe? O amor da minha vida talvez seja a vida. As pessoas que vem e que vão. Como um trem grande e bonito que nunca para. Eu quero ir com ele. Eu preciso ir. Eu não espero que você me perdoe, não agora. Não espero cartão postal dos meus pais, nem do meu chefe. E tudo bem. Eu só preciso ir agora.  Eu sinto muito. Adeus

Beatriz

- Mas Beatriz... - você pode estar se perguntando. - Você já encontrou ou já sabe quem é o amor da sua vida? - E eu te respondo:
- Eu não sei. Talvez o sentido seja esse. Ou a graça, graças a Deus. Quase mais nada me apressa. E você, já encontrou o seu?


   

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobrevivente

Era difícil respirar. Ele se achava o dono do mundo, o Deus, o tudo. E eu? Nada. Eu não era nada. Ou um algo vez ou outra. Produto. Objeto. Saco de pancadas. Ele me fazia sentir um lixo. Humilhada, jogada, pisada, cuspida. Eu não sabia o que fazer além de chorar. Fingir que estava bem? É, eu era muito boa nisso. 
Jarros quebrados, portas arrombadas, coração despedaçado - mas meia hora depois se estivesse tudo bem para ele, então tudo devia estar bem para mim. Era como morrer aos poucos. Como aquele jarro quebrado, eu estava em pedaços.
- Calma, amiga. Não foi nada, juro. Como pode ter sido alguma coisa séria? Ele é formado, esclarecido. Rico. Doutor. Leitor. Eu tenho sorte. Eu tenho muita sorte de ser a esposa dele, (apesar de) por tudo. Ele estava estressado, eu posso perdoar, não posso? Afinal, eu estiquei a corda. Eu não devia ter dito que não estava bem. Não devia ter dito que doía. Fiz por merecer. Ele não me estrangulou, só apertou um pouco mais forte. Eu entendi. Eu o amo. -
Ele chegava em casa de onze, doze, uma da manhã. Eu entendia. Eu sorria. Fingia. O jantar estava pronto. Prato bonito, cheio, passei a noite inteira preparando. Queimei até os dedos por isso, mas nada que não pudesse ser disfarçado. As crianças estavam no quarto, já dormiam. Minhas crianças. Meus dois tesouros. Eu faria de tudo por elas, até mesmo aguentar aquilo em silêncio.
Ele bebia. E então começava a dose de humilhação diária. - Seu lixo. Você não é nada. Vagabunda. - Ô amorzinho, não fala assim, dói tanto. Ele falava. E eu chorava escondida. Doía. Tanto. Essa era eu.
Nada de batom vermelho. Esse vestido? Nem pensar. Sair de casa? Vai se encontrar com ele, não é? Mulherzinha! Falo isso porque te amo. Vem cá, vem. Olha o que eu comprei... panelas de inox. Essas são boas, meu amor. Vai fazer minha comida, vai. Vai lavar minhas roupas. Volto hoje talvez. Amanhã, quem sabe. Você vai continuar aqui, minha doce es(crava)posa.
Ah, respiro fundo. Passou. Acabou. Chega! - É outro, não é? Você não pode me deixar, meu amor! Eu vou morrer sem você. Você vai morrer sem mim. Vem cá, por favor. Você nunca vai encontrar alguém como eu. Venha cá agora, ou eu... - ou você o quê? Você nada. Você não é o meu dono. Você não é mais minha amarra. Você não pode mais me bater. Não pode mais me ferir. Eu sou uma boa esposa, eu vou ser melhor. Eu sei. E você não vai mais me machucar. Nem a mim nem às minhas crianças. Nunca mais. Eu não estou mais cega. Nem surda. Eu nunca mais serei muda. Eu não vou mais aceitar.
Ainda respiro.
Meu Deus.
Adeus.

domingo, 8 de novembro de 2015

As pessoas costumam dizer: "Deus vai te surpreender esse mês!" 
Não. Não não não. Por que só esse mês? Por que só um dia? Deus nos surpreende todos os dias. Deus me surpreende quando me escuta antes mesmo de eu falar. Deus me surpreende quando faz o sol nascer e a lua chegar. E isso acontece todos os dias! 
Deus me surpreende quando os passarinhos cantam, quando duas pessoas se abraçam e se perdoam. Deus me surpreende com o café quente que eu tomo todos os dias e, graças a Ele, nunca faltou. Deus me surpreende quando me lembra que existe, sim, esperança; quando sussurra no meu ouvido que não é à toa que hoje se chama presente: é de presente mesmo. É de graça! E os presentes de Deus são sempre uma surpresa. Me surpreende saber que mesmo com todos os meus defeitos, remendos e ausências, Ele me ama. Amor incondicional. Amor com todas as letras. Amor surpreendente.
Daqui a pouco você vai dormir, e apesar de tudo, ou por tudo, você está vivo, você está em paz. Pode não estar como você queria, mas ei! Amanhã é outro dia, e... adivinha: Deus vai te surpreender nele também. Mais um presente. Uma surpresa todo dia, mas que não duram por um só dia... percebe?
A gente já parou pra agradecer por um amor assim?
- Eu queria ter pra sempre a mente de uma criancinha - disse a minha mais nova amiga de 11 anos. Sorri. - É que as crianças dos dias de hoje crescem muito rápido, sabe? Vê só, as pessoas da minha sala já namoram... eu acho isso tão chato! Quando dizem que eu pareço mais velha não gosto. Ser criança é melhor. Porque imagina... mesmo eu bem velhinha, pra minha mãe ainda vou ser a criancinha dela! Eu ainda vou ganhar presente e brigadeiro de chocolate. Ela vai estar sempre por perto; quero muito que seja assim. - sorri outra vez. Ainda bem que coração não precisa envelhecer.

Muros ou pontes?

Hoje meu professor falou um pouco sobre muros. Muros de cidades, muros de condomínios, muros de vida. - Os muros escondem o que existe do outro lado. Ele te impede de proteger o outro. Te impede de ser um cuidador em potencial. - Acho que ouvi ele dizendo algo sobre cuidador ou segurança. E me peguei pensando: temos cuidado de alguém? De quem? Quantos muros por dia temos construído? O seu vizinho está sofrendo atrás daquele muro enorme de "eu estou bem". 
Tudo é muro. Era o Muro de Berlim, a Muralha da China, e atualmente tem o muro da Cisjordânia. Mas além desses muros, existem os que nós construímos. Não seja bobo, foram com mãos humanas que erguemos o concreto que cobre e esconde.
Ao mesmo tempo penso nas pontes. A London Bridge, a Pont des Arts (aquela dos cadeados), e um pouquinho mais perto da gente tem a Ponte do Paiva. Mas mais perto ainda existem os nossos corações. - O quê? Nossos corações? - você pode me perguntar. E eu te respondo que sim. Você é uma ponte, só está ocupado demais tentando ser muro. O seu coração é uma ponte, só está ocupado demais afastando. Acredito que todos nós somos pontes. Pontes fortes e bonitas. Nós somos capazes de unir sorrisos, de unir mãos, unir ideias, unir corações. Pontes com pontes? É. Nossa ponte não está longe. O amor é a nossa ponte. Eu quero ser uma ponte.

Maria sou, Maria somos

Voltando pra casa tranquila dentro do meu já tão conhecido ônibus das sextas-feiras, tive aquela sensação boa de conseguir um lugar do lado da janela. Os ventos que me fizeram descansar me trouxeram a lembrança da minha irmã da Índia que nesse exato momento volta sozinha e com medo dentro de outro ônibus. Ela teme por sua vida todos os dias. Peço instintivamente para que Deus esteja ao lado dela, como peço para que esteja ao meu lado todos os dias. É tão perigoso ser mulher. Ser flor.
Eu não moro na Índia, mas eu moro no Brasil. E é sonhando que um dia a minha irmã indiana vai andar na rua sem medo é que defendo a minha irmã brasileira. Eu escolhi ser amor, coragem e fé. O amor me faz ser forte. Me faz ir seguindo o sonho de defender minhas irmãs Maria, Amélia, Ana.
Eu não as conheço, mas as nossas histórias são iguais. Também é por elas que eu estudo, que eu grito, que eu escrevo, que eu sou. Eu sou como elas são. Nós somos como elas são. Somos irmãs, somos uma, e isso também é amor. Essa é a luta, a força e a doçura de ser mulher. Nós vamos conseguir, Marias. Eu também sou vocês.

Já dizia Drummond, do 'eu etiqueta'

Todos os dias você se levanta bem cedo...
Toma o seu café, apressado, pois não quer atrasar-se para sua aula ou para o seu trabalho. Todos os dias, na mesma pressa, você pega o seu carro, seu ônibus, seu táxi, e segue seu rumo. Você se mata de trabalhar para ter uma "vida estável". Uma "vida decente". Talvez você se mate de estudar para, como dizem todos os pais ou a maioria deles em todos os discursos para "ser alguém na vida". Todos os dias você se mata para alcançar o que supostamente chama-se "vida". Talvez você adore uma roupa de marca. Hollister, Nike... e se você é mulher, deve adorar Louis Vuitton. E mesmo que você não possa comprar o tão adorado artefato etiquetado com uma grife cara, você junta, economiza todo mês ou às vezes o ano inteiro para conseguir o tão sonhado relógio. A tão sonhada bolsa. Mas, entre tudo isso, onde está você? Onde esconde-se seu verdadeiro eu? Cadê os seus verdadeiros sonhos? Não te julgo por gostar de uma roupa de marca. Gosto de coisas boas, mas até que ponto elas me etiquetam e fazem a minha cabeça? Até que ponto eu fujo do ser para o ter? Eu sinto te informar, mas uma roupa de marca não vai marcar teu coração. Um carro grande e caro não vai comprar filhos, uma esposa dedicada, tampouco uma família feliz. Talvez você seja pai (mãe) e se mate de trabalhar para dar ao seu filho "o que você nunca teve". Todos os dias acorda cedíssimo e volta tardíssimo para matriculá-lo numa escola de qualidade e dar a ele tudo do bom e do melhor. Mas você acaba se esquecendo que o verdadeiro "bom" é a sua essência que é doada e inspirada ao seu filho. O "melhor" é o amor que seu filho, que sua esposa ou seu esposo, sentem de você quando você se lembra de que o mais importante nunca foi um carro caro ou uma casa da moda. É maravilhoso viver bem, é ótimo quando estamos estabilizados financeiramente. Mas pais, mas mães, por favor não se esqueçam de que o verdadeiro amor o dinheiro nunca irá comprar. Lembrem-se de seus filhos e do quanto eles sonham e vibram com sua chegada. Passe mais tempo com os seus pequeninos, isso é importante. Um xbox ou um wii não substituem nem nunca substituirão os seus abraços. O amor não é algo que se sintetize. Aonde está você agora? Onde está sua família? Procure-a, pois no fim das contas, o seu grande e único tesouro que realmente ganhastes na Terra é ela.
Jovem... cuidado. Por que você fica pensando que o verdadeiro amor é apenas uma palavra ou uma embalagem? Por que você se veste tão bem por fora e esquece de se encontrar por dentro? Por que você fica, se ficar é algo tão passageiro e descartável? Por que você se contenta com o supérfluo? Por que um iPhone e uma roupa cara te deixam mais bonito? Não deixe que o mundo apague o amor do teu coração. O amor é algo que não pode ser comprado. Não possui etiqueta, não vem embalado. Mas no fim das contas, no fim da vida, é a única coisa que você verdadeiramente tem. Trabalhe, mas trabalhe com um objetivo maior do que apenas possuir o que o mundo e suas superficialidades te mostram nos comerciais. Estude, mas estude para ser, além de gente, ser humano. Estude para fazer sorrir seus filhos, para dar a eles o bom e o melhor, mas que esse bom e esse melhor sejam primeira e essencialmente o seu completo coração revestido do seu amor. Não te esquece que a roupa rasga, o celular fica obsoleto, o carro bate, a maquiagem borra, as lágrimas ainda descem... e você envelhece. Quero o bom e o melhor pra mim, mas acima disso, quero o bom e o melhor para o meu coração e para quem me rodeia. Quero esperança. Quero antes de tudo, Deus ao meu lado. Quero a graça de um coração cheio de amor. Cansei de querer ter e me esquecer de ser. Cansei de ser um ser vazio... eu não sou e não serei um simples 'eu etiqueta'.

Quantas curtidas você merece?


Hoje a "prenda" do terceiro ano foi a do mendigo, e não pude deixar de pensar e lembrar...
Engraçado como existe tanta gente no mundo que nesse momento mendiga um prato de comida, um teto, uma família, educação, saúde... irônico que enquanto mais da metade do mundo anda mendigando paz, amor, vida... você fica aí mendigando curtida. Mendigando popularidade numa rede social enquanto tantos por aí mendigam por um abraço de uma mãe ou um pai. Mais engraçado ainda é que você tem tudo nas mãos e insiste em dizer que não tem nada. Nós não sabemos o que é mendigar no meio das ruas. Você não sabe o que é pobreza, pois está lendo isso de um smartphone ou de um computador. Por quê perdemos nosso tempo mendigando coisas tão fúteis se possuímos gratuitamente o amor? Pra quê passar o dia numa rede social implorando e apelando por curtidas quando você só tem essa vida? Dia após dia ignoramos a pobreza, a fome, a falta. Esquecemos de tudo que recebemos e de como somos privilegiados. Nos prendemos a futilidades e perdemos a nossa essência. Nossa geração se resume a whatsapp e a curtida de Facebook. Cadê sua essência agora? Cadê seu ganho? Enquanto você tá por aí mendigando um botãozinho chamado "curtida" tem dez mendigando a vida. Quantas curtidas o seu "ser" merece?

(Do dia 23 de maio de 2014)

sábado, 7 de novembro de 2015

Minha pequena nebulosa

Quem me conhece sabe bem: eu sou um ímã para desastres! Tropeços e escorregadas e quedas e topadas. Não vivo voando mas vivo caindo por aí! É difícil me ver sem uma manchinha roxa no joelho ou nos braços. 
E essa semana não foi diferente: caí de novo! Dessa vez doeu muito. Ganhei uma nova manchinha roxa. Ficou "em alto relevo" como diz a minha irmã mais nova.
Mas pensando bem, foi sim diferente. Hoje me peguei olhando esse pequeno hematoma e do nada comecei a sorrir. Ele parece uma pequena galáxia. Ou um planeta. Uma nebulosa. Isso! Uma nebulosa.
Agora não preciso mais ficar implorando por um telescópio, tenho uma nebulosa bem aqui na minha perna!
Na hora dói, é ruim, e até irrita. Você reclama, se culpa e fica se perguntando o porquê de ser tão desastrado. Mas o que seria da minha nebulosa se não houvessem os meus desastres?
Lembrei das manhãs e das noites. Sabe, eu amo o céu azul lisinho. Sem nuvens. Mas o que seria dos que amam sem as estrelas para ouvirem?
Parei de pensar tanto no sol que às vezes parece se pôr tão rápido e comecei a olhar para as estrelas. É escuro, mas elas estão brilhando.
Talvez seja esse o mistério das nossas nebulosas. Eu posso vê-las como simples hematomas que vão me lembrar do quanto eu sou estabanada, ou... eu posso inventar minha própria constelação no meu espaço estelar.
As estrelas brilham até quando caímos.

Meus pés, teus calos

É preocupante quando seis horas de salto são mais preocupantes para alguém que seis horas de pé num ônibus lotado.
É estranho quando nos irritamos quando a fila da lanchonete está grande e esquecemos do mocinho do lado de fora que acordou tão cedo, mas mesmo assim não pôs nem um pedacinho de pão na boca. 
Minha indignação não são as seis horas de salto. Não são os calos. Eu posso conviver com eles vez ou outra.
Me preocupa o fato de quase ninguém estar preocupado.
Foragidos, imigrantes? Contanto que não sejam os haitianos no meu Brasil, o problema não é meu, vou me comover em rede social.
Índios? Quem liga pra eles? Eles já têm um dia pra eles no calendário, isso é o suficiente. Não é?
Alguém que ainda não tomou café hoje? Que pena, né. Mas pelo menos emagrece sem precisar tomar shake, olha aí.
A dor do outro? Eu esqueci. Se não é a minha, eu não sinto. Estou cego. Surdo. Mudo.
Estou boquiaberta mas não estou muda. Vou gritar sempre.

O prédio que eu já morei

Todos os dias, de segunda a sexta, eu acordo bem cedo pra apanhar a condução. É a mesma rotina de sempre, as mesmas pessoas, as mesmas carinhas de sono, as mesmas fardas, as mesmas esperanças.
Jaboatão do Guararapes é bem grande, e percorremos praticamente a cidade inteira até chegarmos a Boa Viagem, onde ficam a maioria dos colégios e cursinhos.
Nesse longo percurso, existem muitos prédios. Prédios de todos os tamanhos e de todos os gostos. Casas. Lojas. Postos. Prédios. Mas no meio desse cinza, existe um prédio em especial. É ele!
O Studio Copacabana. Ali, pertinho de tudo. Não dá pra não sorrir por lembrar. Já morei ali. Tinha uns 8, 9 anos. Tanta coisa já vivi! Tanto chão já corri ali. Lembro da minha amiga que me ensinou golpes de judô e da que trocou figurinhas da Floribella comigo. Lembro do jardim de inverno que eu não cansava de admirar. Dos vizinhos apressados e do síndico simpático. Lembro até das vezes que eu chorei, por ter levado tombo ou não. Não moro mais lá, mas lá também é o meu lugar. Eu amo aquele lugar.
E no meio de muros de pedra, aquele é especial.
Você já notou como o amor muda tudo? De repente um prédio não é só um prédio. De repente pessoas não são só pessoas. Não, pessoas nunca serão só pessoas. Passar por aquele prédio me faz lembrar também, como Anna do beijo francês bem colocou, que lar pode ser uma pessoa e não um lugar.
Quando o amor vira seu lar qualquer lugar dá pra amar. Até de manhã bem cedinho, olhando pra um prédio bonito. Não é?

Senhora Lua

A lua. 
Olhar pra o céu me faz sonhar diante dessa imensidão e da minha pequenez. 
Sonho com o dia em que vou ver Deus assim, frente a frente, só pra dizer: - você é mesmo um artista. É uma honra, é imerecido e é lindo fazer parte disso e ser chamada de filha. Você é inspirador, Papai.

Mulambo eu... mulambo tu?

"E o mulambo já voou, caiu lá no calçamento, bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o mulambo ficou lá
Mulambo eu, mulambo tu"
Hoje o dia foi corrido, e os meus fones insistiam em tocar Chico Science pelos rios, pontes e overdrives. Eu sempre amei Chico, mas nunca em toda minha vida eu havia visto tão real aquilo que ele sempre cantou.
Na frente do curso onde estudo havia um rapaz. Um senhor. Caído no chão, se tremendo, sem nenhuma garantia de nada. Supondo apenas o chão. Aquela pedraria quente que não perdoa quem cai.
Lá estava ele, com várias pessoas ao redor. Doeu saber que muitos deles eram apenas curiosos urubus sobrevoando, fotografando e comentando, mas ao mesmo tempo meu coração se encheu de esperança ao ver que naquele meio haviam pessoas que se importavam com o pobre e caído maltrapilho.
Dói não saber como se chama aquele senhor. Dói saber mais tarde que ele, sua esposa e seus filhos foram despejados porque o senhor não tinha como pagar o aluguel. Um senhor epiléptico, que estava internado mas saiu correndo de lá para abraçar sua família que estava desamparada. Esse mesmo homem foi espancado por não ter pago o aluguel da sua casa. Esse homem teve um sério traumatismo craniano. Como doeu a omissão de tantos. Como dói saber que talvez eu nunca mais vá saber como esse homem vai ficar.
Não vai passar em nenhum noticiário. Ninguém vai comentar. Ninguém vai falar. Ninguém. Qual é mesmo o nome dele? Tirem logo ele da rua, está obstruindo a passagem.
Cadê a família dele? Na rua? Pelas pontes? Quem liga pra isso? Eles não têm sobrenome, nem renome, nem renda, beira, nem eira.
Qual a verdadeira história dele? O que ele fez? E o pior: o que nós fazemos?
Eu não sei. Nós não sabemos. Nós ignoramos. Por quê?

Amor, amor...

- Você sabe o que dizem do amor, não é? Ele não acaba...
- Maria, acho que não é à toa que amor rima com dor.
- Por quê, Zé? 
- Ah, o amor é quase isso que dizem. O amor é tudo e muito mais, Maria. Não dá pra resumir num pra sempre que acabou, como o teu, menina. O amor talvez seja pluralidade. Mais do que tudo ainda é o amor. 
- Tá bom Zé, mas ainda não te entendo! Por quê tu me diz que amor tem motivos pra rimar com dor?
- Por que a gente não pede pra sentir dor. Dor não é uma coisa que se deseje, não vem com um pedido formal. Dor é uma coisa engraçada, uma coisa particular. Tem gente que sente mais dor que outros. Mas todos um dia vão sentir dor. E a dor que é dor não passa, a gente só aprende a conviver com ela.
- É verdade, Zé. Talvez o amor seja coragem para uma hora ou outra ter que sentir dor.
- Não, Maria.
- Não?
- Não. O amor em si é a dor. Mas é uma dor bonita, uma dor que vale a pena ser doída. Porque no fim das contas, o verdadeiro amor é também o antídoto contra a dor. Eu te disse, te disse que o amor é tudo.
- Oxe Zé, eu não entendi foi nada!
- Ô Maria, e quem entende o amor?
- Mas bem que era pra entender, não?
- Não, Maria. Se amor fosse pra entender eu saberia, e não sentiria.
- Zé, o amor é um verbo!
- É verdade, Maria.
- Verbo, paráfrase ou sem nexo, não importa. O amor é eterno.

Vasto mundo e poeira das estrelas

Me aprofundando um pouco mais em atomística, fiquei maravilhada com a dimensão incontável do cosmos. Cada um de nós comporta mais de milhões de átomos, aglomerados de moléculas, todos na mais perfeita dança da vida, sincronizando em poesia a perfeição do universo. 
Não tem como não parar e observar tudo de uma maneira diferente. Esse mundo é tão mais bonito do que aparenta ser. Um mundo cheio de neutrinos que não conseguimos ver, de luz que vem e vai há mais de bilhões de anos enquanto estamos ocupados demais discutindo ou pensando em notas e mais notas, de dez ou de cem.
Estudar a natureza faz com que seja impossível ficar apático ao outro. Cada ser é um aglomerado de beleza, de perfeição, de maestria. Não dá para não contemplar.
Tudo é um pequeno milagre costurado em milhões e milhões de galáxias, de vias, de estrelas, da poeira delas e de supernovas. Pensar nisso me faz valorizar o orvalho da flor do meu quintal e seu universo particular; me faz ver essa explosão de cores e vida, reverenciando e agradecendo, aplaudindo em silêncio tanta perfeição e beleza.
Como não parar e admirar? Esse mundo é muito maior do que imaginamos - mas talvez seja isso. Vamos imaginar. A ciência e a imaginação quando dão as mãos são isso: nós.
Obrigada, Deus. Obrigada, mundo.