Passando de ônibus pela ponte que liga até Recife, avistei o Estelita. Sorri. Senti coisas bonitas, porque esse lugar é isso: ele é lindo, é vibrante, é antigo, é novo - é a minha cidade.
E aí me dei conta, mais uma vez, de que a especulação imobiliária jamais erguerá nada tão bonito quanto o cais José Estelita.
Há os que concordem, há os que destroem. Eu digo: é um dos cartões postais mais bonitos da cidade. O Estelita é lindo.
3 de fevereiro de 2016
Camila é cristã, teimosa, adora escrever, tem sérios problemas em controlar os vícios do café, assídua de ironias boazinhas e tem mania de falar de si mesma em terceira pessoa.
sábado, 28 de maio de 2016
8 de março
'Comemorei' o dia das mulheres estudando.
De início achei um pouco chato, fiquei cansada - suspirei duas ou três vezes, enquanto resolvia as insistentes questões de transporte passivo e ativo.
E foi aí que, quase por osmose, eu vi: não poderia ter tido coisa mais bonita do que passar esse dia estudando. Instintivamente me lembrei das minhas irmãs de perto e de longe, mudas e telepáticas, que dariam tudo para ter um livro nas mãos. Malala me ensinou isso a alguns anos.
Sorri. Lembrei em seguida de tudo o que nós, mulheres, conquistamos com força, doçura e esperança, fé, amor e um acréscimo de desobediência.
Respiramos luta, superação e girassóis.
Sou parte do gênero que não desiste nunca, que insiste, que sorri, que desabrocha na adversidade, e que assim, lindo, vira flor. Sou parte daquelas que sonham, que vivem e que acordam para ser poesia.
Ser mulher é continuar, e eu vou. Vamos?
8 de março de 2016
De início achei um pouco chato, fiquei cansada - suspirei duas ou três vezes, enquanto resolvia as insistentes questões de transporte passivo e ativo.
E foi aí que, quase por osmose, eu vi: não poderia ter tido coisa mais bonita do que passar esse dia estudando. Instintivamente me lembrei das minhas irmãs de perto e de longe, mudas e telepáticas, que dariam tudo para ter um livro nas mãos. Malala me ensinou isso a alguns anos.
Sorri. Lembrei em seguida de tudo o que nós, mulheres, conquistamos com força, doçura e esperança, fé, amor e um acréscimo de desobediência.
Respiramos luta, superação e girassóis.
Sou parte do gênero que não desiste nunca, que insiste, que sorri, que desabrocha na adversidade, e que assim, lindo, vira flor. Sou parte daquelas que sonham, que vivem e que acordam para ser poesia.
Ser mulher é continuar, e eu vou. Vamos?
8 de março de 2016
Moças
Eu quero ser reconhecida por quem eu sou, e não por quem aparento ser.
Só estou cansada de ter que aceitar em silêncio o quanto a beleza conta, o quanto um pó compacto influencia, o quanto o resto parece um nada sem tamanho.
Eu gosto de me maquiar. Mas eu gosto muito mais de ler, de debater, de escrever, de conversar, de discutir. Admiro as meninas que se pintam e as que não se pintam também - elas são lindas, cada uma a sua bela e singular maneira. Mas elas não devem ser vistas apenas em suas cores externas - isso é tão fugaz.
Eu não quero ser vista como uma bonequinha, por mais que eu adore a Holy Golightly. Atrás de cada esteriótipo de bonequinha existe uma história, existe um sonho, existe uma vida, e existe uma dor.
É que dói ouvir todos os dias que o estresse é culpa apenas da TPM. É horrível escutar para ser silenciosa o tempo todo, agir como se não tivesse sentimentos. Eu sinto, e eu sinto muito.
Eu só queria que o sol brilhasse para todos do mesmo jeito, sem rodeios, sem melindres. Cansei de ser melindrosa.
Ser menina é tão mais do que apenas usar laços e vestir rosa. Ser menina é amadurecer antes da idade permitir, é perceber o coração, é ser enérgica, tão cheia de ideias, tão cheia de vida, mas tão obrigada a calar a boca.
Eu não quero mais calar a boca. Eu quero ser mulher, porque eu lutei para me tornar uma. Em resistência encontro os meus sonhos, tudo o que escrevo, os diálogos, a vontade de ser ouvida, a voz que fala alto no meio da multidão.
Só estou cansada de ter que aceitar em silêncio o quanto a beleza conta, o quanto um pó compacto influencia, o quanto o resto parece um nada sem tamanho.
Eu gosto de me maquiar. Mas eu gosto muito mais de ler, de debater, de escrever, de conversar, de discutir. Admiro as meninas que se pintam e as que não se pintam também - elas são lindas, cada uma a sua bela e singular maneira. Mas elas não devem ser vistas apenas em suas cores externas - isso é tão fugaz.
Eu não quero ser vista como uma bonequinha, por mais que eu adore a Holy Golightly. Atrás de cada esteriótipo de bonequinha existe uma história, existe um sonho, existe uma vida, e existe uma dor.
É que dói ouvir todos os dias que o estresse é culpa apenas da TPM. É horrível escutar para ser silenciosa o tempo todo, agir como se não tivesse sentimentos. Eu sinto, e eu sinto muito.
Eu só queria que o sol brilhasse para todos do mesmo jeito, sem rodeios, sem melindres. Cansei de ser melindrosa.
Ser menina é tão mais do que apenas usar laços e vestir rosa. Ser menina é amadurecer antes da idade permitir, é perceber o coração, é ser enérgica, tão cheia de ideias, tão cheia de vida, mas tão obrigada a calar a boca.
Eu não quero mais calar a boca. Eu quero ser mulher, porque eu lutei para me tornar uma. Em resistência encontro os meus sonhos, tudo o que escrevo, os diálogos, a vontade de ser ouvida, a voz que fala alto no meio da multidão.
Moças, por favor, não podemos fazer silêncio nunca mais.
15 de abril de 2016
De dentro do ônibus
Do lado de dentro, no lado de fora, conheço todos. Todos os dias vejo a senhora simpática do cabelo cacheado segurando uma bolsa de plástico - sempre séria, mas sorri quando eu sorrio pra ela.
Todos os dias a cobradora, sem graça e cheia de esperança, pergunta se a minha passagem tá trocada.
Vez ou outra encontro o seu Michel, ambulante, viajante, argentino alegre, apaixonado pelo Brasil.
Todos os dias passo por aquela ponte bonita, e todos os dias vejo os mesmos pescadores - vidas tão diferentes. Jogam as redes, puxam redes, ao mesmo tempo em que as crianças estão do outro lado brincando no rio.
Todos os dias vejo o cais, os pássaros, o vôo. Me imaginando voando junto com eles, todas as vezes.
No centro da cidade é uma beleza só! É tanta placa, tanta gente, tanto rosto, tanta cor, tanta palavra, tanta vida... é mais história naquela cidade do que as histórias que eu costumo contar.
Casas bonitas, prédios intrometidos. Pessoas apressadas, pessoas tristes, pessoas felizes. Pessoas. O povo todo reunido - ninguém se conhece, mas todos se olham.
Gosto de pensar que conheci todos eles um dia. Viajando.
Não desci no centro da cidade nesses dias todos, só uma vez ou outra. Meu destino é sempre mais pra lá. Mas indo e vindo, voltando, chegando, mesmo sem descer, eu conheço todos eles.
O caminho fica mais bonito quando sabemos por onde andar - e por onde olhar.
Vez ou outra encontro o seu Michel, ambulante, viajante, argentino alegre, apaixonado pelo Brasil.
Todos os dias passo por aquela ponte bonita, e todos os dias vejo os mesmos pescadores - vidas tão diferentes. Jogam as redes, puxam redes, ao mesmo tempo em que as crianças estão do outro lado brincando no rio.
Todos os dias vejo o cais, os pássaros, o vôo. Me imaginando voando junto com eles, todas as vezes.
No centro da cidade é uma beleza só! É tanta placa, tanta gente, tanto rosto, tanta cor, tanta palavra, tanta vida... é mais história naquela cidade do que as histórias que eu costumo contar.
Casas bonitas, prédios intrometidos. Pessoas apressadas, pessoas tristes, pessoas felizes. Pessoas. O povo todo reunido - ninguém se conhece, mas todos se olham.
Gosto de pensar que conheci todos eles um dia. Viajando.
Não desci no centro da cidade nesses dias todos, só uma vez ou outra. Meu destino é sempre mais pra lá. Mas indo e vindo, voltando, chegando, mesmo sem descer, eu conheço todos eles.
O caminho fica mais bonito quando sabemos por onde andar - e por onde olhar.
26 de abril de 2016
Se você soubesse
Ah Deus, se você soubesse! É diferente demais agora. Totalmente diferente. Você, tal qual aquele movimento no estelita, ocupa os meus pensamentos mais bonitos.
Casal de mão dada, café quentinho, sorriso sem desculpa, abraço apertado, lindo, tudo contém você.
Você nem sabe, mas ah! Se soubesse... há tempos está contido no meu coração.
23 de maio de 2016
Casal de mão dada, café quentinho, sorriso sem desculpa, abraço apertado, lindo, tudo contém você.
Você nem sabe, mas ah! Se soubesse... há tempos está contido no meu coração.
23 de maio de 2016
Dança
Quando você quis me tirar para a valsa, eu não quis. Não sei valsar, eu não sou de dançar conforme a música - acho que você sabe. Mas a melodia tocou mais uma vez, e outra... eu percebi que é você aquele, que todos chamam de "o pé de valsa".
Quero dançar com você. Dançar pela vida, pelos trilhos dos trens, em cima dos prédios, nos tetos das casas grandes, entre os viadutos, afundando os pés no mangue, mãos dadas, corações juntos, dança.
Eu sei. Não ensaiei. Não cantei música alguma. Eu nem sei tocar instrumento de corda. Nem percussão. Mas agora eu sei que é você aquele por quem se espera ansioso a chegada ao baile. Sei que é você, que sempre presente, se apresenta mesmo na ausência. E foi na ausência que te notei.
Eu sei que você me pediu a concessão da honra, e eu neguei - mas agora eu te peço, sendo mulher e flor, pode vir. Flor que rodopia - que o vento tirou pra dançar - mas é com você o meu encontro de passos. Passo a passo, você.
Quer dançar comigo?
26 de maio de 2016
Quero dançar com você. Dançar pela vida, pelos trilhos dos trens, em cima dos prédios, nos tetos das casas grandes, entre os viadutos, afundando os pés no mangue, mãos dadas, corações juntos, dança.
Eu sei. Não ensaiei. Não cantei música alguma. Eu nem sei tocar instrumento de corda. Nem percussão. Mas agora eu sei que é você aquele por quem se espera ansioso a chegada ao baile. Sei que é você, que sempre presente, se apresenta mesmo na ausência. E foi na ausência que te notei.
Eu sei que você me pediu a concessão da honra, e eu neguei - mas agora eu te peço, sendo mulher e flor, pode vir. Flor que rodopia - que o vento tirou pra dançar - mas é com você o meu encontro de passos. Passo a passo, você.
Quer dançar comigo?
26 de maio de 2016
Você e seu papo incrível sobre urbanismo e beleza em miudezas. Você, valorizando todos os meus livros e poemas.
Você, que como eu, diferente de tanta gente apressada, sempre anda distraído, sendo gente, sendo coração.
Você, cheio de estradas e veias abertas. Você, que deixa o tempo passar em segundos numa xícara de café.
3 de maio de 2016
Você, que como eu, diferente de tanta gente apressada, sempre anda distraído, sendo gente, sendo coração.
Você, cheio de estradas e veias abertas. Você, que deixa o tempo passar em segundos numa xícara de café.
3 de maio de 2016
Priscila
Hoje foi um dia especial.
Não estava nada bem, saí da sala de aula hoje de manhã me sentindo muito mal, no meio da explicação do professor. E nessa rotina louca, imaginei que ficaria ali na escadaria por alguns minutos, me recompondo, em silêncio, e em seguida voltaria para dentro da sala mais uma vez. Eu ia tentar ficar bem.
Mas não foi isso que aconteceu.
Priscila, a secretária mais fofinha do curso de humanas e linguagens, me viu, e correu pra ver como eu estava. Parece bobo, não é? Mas Priscila está fazendo uma pós graduação à distância, tem que se dividir entre trabalho e fichamentos, entre coração e obrigações.
E no meio de todas essas escolhas, ela decidiu me acolher. Foi com tanta doçura o modo que ela perguntou como eu estava, como ela pediu pra eu sentar - eu, toda estressada pensando na aula que estava perdendo - e ela, apesar de tanta pressa e rotina, cheia de humanidade e coisas boas, parou tudo que estava fazendo até se certificar de que eu estava bem.
No meio de horários marcados e atrasos, eu reconheci uma verdadeira amiga.
Priscila tem um coração gigante, que me fez, apesar de um dia difícil, ter esperança.
O amor vence o mundo todos os dias!
13 de maio de 2016
Não estava nada bem, saí da sala de aula hoje de manhã me sentindo muito mal, no meio da explicação do professor. E nessa rotina louca, imaginei que ficaria ali na escadaria por alguns minutos, me recompondo, em silêncio, e em seguida voltaria para dentro da sala mais uma vez. Eu ia tentar ficar bem.
Mas não foi isso que aconteceu.
Priscila, a secretária mais fofinha do curso de humanas e linguagens, me viu, e correu pra ver como eu estava. Parece bobo, não é? Mas Priscila está fazendo uma pós graduação à distância, tem que se dividir entre trabalho e fichamentos, entre coração e obrigações.
E no meio de todas essas escolhas, ela decidiu me acolher. Foi com tanta doçura o modo que ela perguntou como eu estava, como ela pediu pra eu sentar - eu, toda estressada pensando na aula que estava perdendo - e ela, apesar de tanta pressa e rotina, cheia de humanidade e coisas boas, parou tudo que estava fazendo até se certificar de que eu estava bem.
No meio de horários marcados e atrasos, eu reconheci uma verdadeira amiga.
Priscila tem um coração gigante, que me fez, apesar de um dia difícil, ter esperança.
O amor vence o mundo todos os dias!
13 de maio de 2016
Hoje eu conheci a Vitória
Hoje eu conheci a Vitória.
As aulas acabaram, e eu tive que voltar correndo pra casa, porque hoje vou viajar em família, e todo mundo me apressou pra eu chegar mais cedo.
Corrigi a redação com o professor, e corri pra pegar o ônibus, que por sinal demorou mais do que nunca. Nada do Candeias, muitos Piedade, mas eu não queria desistir.
De repente começou a chover muito forte! Esse tempo louco da cidade, né? Não teve jeito. Tive que pegar um insistente Piedade. Ônibus lotado, janelas fechadas, tudo abafado. Sentei nos degraus da porta do meio, coloquei os fones, desenhei um solzinho no vidro, e fiquei lá, driblando as bolsas pesadas e os pés apressados.
E aí, ali perto do Ponteio, ela entrou no ônibus. Bem pequenininha, com o cabelo bem enroladinho, olhar esperto, usando all star preto. Sorri na mesma hora, porque automaticamente lembrei de mim naquela idade. Ela tinha as mesmas marquinhas de alergia de muriçoca que eu costumava ter quando era pequena. Era esperta, alegre, sentou nos degraus também, do meu lado.
Depois de cinco minutos a gente não parava de conversar. Vitória tem onze anos e começou a andar de ônibus semana passada. Ela riu quando eu disse que só faz um ano que eu comecei a andar. É monitora de matemática, e riu mais uma vez quando eu disse que era péssima em exatas. Vitória é toda decidida: quer ser engenheira eletrônica quando crescer.
Fiquei feliz de o ônibus ter atrasado, porque aí eu a conheci. E lembrei de toda a minha infância, dos meus onze anos, e de como eu era... tão parecida com ela. As mãos pequenas, o olhar pensativo, o sorriso largo.
No meio da cidade, dentro do coletivo, nas ruas, precisamos olhar mais para o lado e perceber a história de cada um. Vitória me deixou nostálgica e com vontade de rever fotos antigas. De repente a chuva e a lotação estavam em segundo plano. As surpresas e as conversas do caminho são as melhores.
20 de maio de 2016
Pequena crônica da parada de ônibus
Hoje mais cedo, esperando o ônibus chegar, veio uma senhorinha linda pra a parada e ficou comigo esperando. Com uma blusa de poá, óculos escuros, bem bonita.
Quando o ônibus chegou vazio, os olhos dela brilharam! Ela sorriu tanto, olhou pra mim toda contente, e disse: "Olhe, está vazio! Que felicidade!"
Foi o tipo de alegria que contagiou quem estivesse por perto. É que esses ônibus a essa hora, hein? Só a graça.
Por um momento fui grata. São esses pequenos momentos de felicidade que me fazem ter fé. É tão simples, mas eu to sorrindo até agora.
27 de maio de 2016
Quando o ônibus chegou vazio, os olhos dela brilharam! Ela sorriu tanto, olhou pra mim toda contente, e disse: "Olhe, está vazio! Que felicidade!"
Foi o tipo de alegria que contagiou quem estivesse por perto. É que esses ônibus a essa hora, hein? Só a graça.
Por um momento fui grata. São esses pequenos momentos de felicidade que me fazem ter fé. É tão simples, mas eu to sorrindo até agora.
27 de maio de 2016
Ser mulher
Não deveria doer ser mulher, mas dói.
A sensação mais horrível do mundo é ter que sair praticamente correndo da parada de ônibus até chegar em casa, com as chaves entre os dedos, olhando para os lados, com medo não de monstros, mas de homens. Homens?
Uma mulher ser estuprada por 30 homens não é normal. Dói até o fundo da alma, machuca a dignidade, rasga o corpo, sangra. Poderia ser eu. Poderia ser qualquer uma de nós, mulheres.
Isso não é uma piada de rede social. Não é uma notícia que repercutiu agora e depois vai ser abafada. Isso é todos os dias. Isso é o medo de andar sozinha à noite, as privações de simplesmente ser mulher, o direito ignorado, as vozes silenciadas, bofetadas na alma. Ser mulher não é pra machucar. Não é pra ter medo. Mas machuca. Mas amedronta.
Vivemos numa sociedade que nos violenta, não só fisicamente, mas formalmente, quando normatiza, quando trata como trivial, quando chama de frescura, quando diz que é drama.
Isso não é um gráfico. Nós não somos uma média. Nós somos mulheres. Isso não pode passar. Isso aconteceu hoje, com uma mulher que, independente de qualquer coisa, é uma mulher. Amanhã vai ser com qual de nós?
Onde fica o respeito? Onde fica a dignidade? Onde fica o direito a vida?
Por favor, não abra a boca pra falar do que você não sente na pele. Nunca mais diga que é drama. Isso existe. Isso dói. Isso precisa parar.
Nós precisamos viver.
A sensação mais horrível do mundo é ter que sair praticamente correndo da parada de ônibus até chegar em casa, com as chaves entre os dedos, olhando para os lados, com medo não de monstros, mas de homens. Homens?
Uma mulher ser estuprada por 30 homens não é normal. Dói até o fundo da alma, machuca a dignidade, rasga o corpo, sangra. Poderia ser eu. Poderia ser qualquer uma de nós, mulheres.
Isso não é uma piada de rede social. Não é uma notícia que repercutiu agora e depois vai ser abafada. Isso é todos os dias. Isso é o medo de andar sozinha à noite, as privações de simplesmente ser mulher, o direito ignorado, as vozes silenciadas, bofetadas na alma. Ser mulher não é pra machucar. Não é pra ter medo. Mas machuca. Mas amedronta.
Vivemos numa sociedade que nos violenta, não só fisicamente, mas formalmente, quando normatiza, quando trata como trivial, quando chama de frescura, quando diz que é drama.
Isso não é um gráfico. Nós não somos uma média. Nós somos mulheres. Isso não pode passar. Isso aconteceu hoje, com uma mulher que, independente de qualquer coisa, é uma mulher. Amanhã vai ser com qual de nós?
Onde fica o respeito? Onde fica a dignidade? Onde fica o direito a vida?
Por favor, não abra a boca pra falar do que você não sente na pele. Nunca mais diga que é drama. Isso existe. Isso dói. Isso precisa parar.
Nós precisamos viver.
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