sábado, 28 de maio de 2016

Ser mulher

Não deveria doer ser mulher, mas dói. 
A sensação mais horrível do mundo é ter que sair praticamente correndo da parada de ônibus até chegar em casa, com as chaves entre os dedos, olhando para os lados, com medo não de monstros, mas de homens. Homens?
Uma mulher ser estuprada por 30 homens não é normal. Dói até o fundo da alma, machuca a dignidade, rasga o corpo, sangra. Poderia ser eu. Poderia ser qualquer uma de nós, mulheres. 
Isso não é uma piada de rede social. Não é uma notícia que repercutiu agora e depois vai ser abafada. Isso é todos os dias. Isso é o medo de andar sozinha à noite, as privações de simplesmente ser mulher, o direito ignorado, as vozes silenciadas, bofetadas na alma. Ser mulher não é pra machucar. Não é pra ter medo. Mas machuca. Mas amedronta.
Vivemos numa sociedade que nos violenta, não só fisicamente, mas formalmente, quando normatiza, quando trata como trivial, quando chama de frescura, quando diz que é drama.
Isso não é um gráfico. Nós não somos uma média. Nós somos mulheres. Isso não pode passar. Isso aconteceu hoje, com uma mulher que, independente de qualquer coisa, é uma mulher. Amanhã vai ser com qual de nós?
Onde fica o respeito? Onde fica a dignidade? Onde fica o direito a vida?
Por favor, não abra a boca pra falar do que você não sente na pele. Nunca mais diga que é drama. Isso existe. Isso dói. Isso precisa parar.
Nós precisamos viver.

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