terça-feira, 8 de novembro de 2016

Fotografia

Eu não posso e eu não vou admitir que ainda estou apaixonada por você. Não dá. Orgulho, medo, saudade, um pouco mais de orgulho - esse sincretismo de inércia e tantas outras coisas misturadas - eu não vou te dizer nada. Não vou te contatar. Não direi que sinto sua falta, como eu costumava dizer vez ou outra. Mas a verdade é essa, que eu escrevo, mas não profiro em voz alta: é você, aquele que superou todas as minhas expectativas. Você, e todo o seu talento, toda sua beleza em lentes fotográficas e em graus de astigmatismo e alguma miopia. Você, que captura o bonito. Você, que eu nunca vou dizer - você, das livrarias e dos cafés.
Eu queria, mas não posso. Queria pegar todo esse orgulho e jogar bem longe daqui, pra ir aí te ver. Queria poder te mandar todas as poesias. Queria que fôssemos. Não somos. E eu sei que não seremos. Típico. Acho que todos os meus romances acabaram assim. Sem rodapé. Pretérito perfeito. Fim.
Talvez pudéssemos ser diferentes, afinal, fotografias, não é? Elas permanecem. Amareladas ou preto e branco, como o mundo daquele cantor - gostaria que tivéssemos permanecido.
Porque olhar suas fotos é lembrar de você - não, não estou falando de seus olhos ou do seu cabelo bagunçado. Talvez um pouco, mas não só isso. Lembrar de você ultrapassa fisionomias vãs e entra em paisagem e horizonte - em árvores de outono, em chãos, tetos de qualquer canto, miudezas: capturando o bonito, como você costuma fazer. Às vezes sorrio para mim mesma pensando em como você pôde capturar a beleza em mim também. Aquele momento passou, mas a foto - um jeito bonito de caracterizar uma lembrança - continua aqui. Ninguém clicou, nem imprimiu, não tem pixel - mas ela continua aqui.
Embora não existam fotografias nossas, você sempre estará nas minhas lentes.

domingo, 4 de setembro de 2016

You paint me a blue sky and go back and turn it to rain.

Fui boba. Sou boba. Permaneço sendo boba. Foi assim, fácil, rápido, me apaixonei por ele, acreditando que era tudo verdade... que eu poderia ser a única na vida de alguém. Bobagem, não é? Como todas as coisas que eu defendo e digo que são verdade. Olhe para mim: eu leio Jane Austen, bebo chá, sorrio com borboletas, choro dentro do banheiro, quando ninguém está vendo.
Tenho essa mania idiota de acreditar em todo mundo, em tudo... a pior mania de todas: acreditar que vou ser amada na mesma intensidade que eu amo. Boba. Mais uma vez boba. Ele nunca me amou. Eu nunca fui princesa - eu nem mesmo tenho uma coroa. Eu não consigo fazê-lo ficar, eu não consigo fazer as pessoas ficarem.
E eu, como tudo que eu faço, não sei o que fazer agora. Não temos culpa, não é? Não temos. Eu não quero mais amar. Eu vou trancar meu coração a partir de agora, por tempo completamente indeterminado. Eu não quero mais amar. Eu não sei nem o que é o amor. Ele existe? Eu não sei. Mas está trancado para mim a partir de agora.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ah, como dó...
Meu coração faz poesia, soneto, sarau e serenata - enquanto o teu, bicho inquieto, surpreendentemente adormece em um canto qualquer. E eu, em qualquer canto, acordada, nas cordas da viola que insiste mas ninguém vê. Ouviu? Intuo que não. Esse órgão tem sono pesado para a pena que é cantar para quem não parou pra escutar. 
Dói como dó. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Chuva de verão

Talvez esse tenha sido o meu maior erro: acostumada, nas aulas de natação e até comigo mesma, mergulhei de cabeça em alguém que era só uma poça de chuva deixada ali de manhã e que daqui a algumas horas ou minutos ia evaporar. Eu quis ser plenamente eu em quem talvez nem saiba o que é isso - ou talvez saiba, mas eu não quero saber disso agora. Fui clima em quem só foi tempo, garoa. E foi. Ele é mais velho, mas sente muito menos do que eu. O que fazer? Eu só tenho dezenove. Talvez a certidão de nascimento dele queira atestar que ele é mais centrado, mais experiente, com mais caminhos, mas... quer saber? Eu penso e presenciei algo completamente diferente. Me apaixonei por um rapaz pelo que ele era, foi ou deixou de ser - ele me falava de suas viagens, e eu sorria imaginando cada episódio bem narrado. Ele falava com propriedade coisas sobre igualdade, movimentos sociais, empatia e beleza em todos os segmentos - ele até me chamava de bonita, também. E eu juro que acreditei nisso todas as vezes que ele disse. Mas o tempo - implacável tempo nos ponteiros e passos - passou. E com ele foram os discos, as risadas, as canções, as xícaras e os interesses. As vontades? Elas também passaram, como os carros passam, como a chuva cai, como a poça seca. Ele foi chuva - chuva bonita, acrescentei. Mas que pena. Foi só mais uma transitória, inconstante, passageira e acabada chuva de verão. - Sorri. Nem precisei olhar para o céu. Estendi as mãos para fora, e... viu? Parou.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Luzes da ponte

Hoje voltei pra casa do lado da janela que dá pra as luzes de perto do rio - aquelas bem bonitas à noite, sabe? Elas.
Passei bem ao lado delas, olhei bem... algumas estavam apagadas, uma estava queimando, a maioria acesa. Nada de incomum, nem de tão belo.
Aí o ônibus foi se afastando. Se afastando cada vez mais. Até que chegou na ponte. De lá vi as luzes mais uma vez. Caramba! Maravilhosas! 
O reflexo delas na água do rio, o contraposto com o céu escuro - elas ali, de longe, pareciam milhares de estrelas alinhadas. E foi aí que eu entendi. De longe.
Lembrei de você. De longe, bonito. Belo como as luzes estrelas da ponte. Mas de perto não dá tão certo quanto eu imaginei. Bem que eu queria, mas isso é imprevisível. Mas bem... são as luzes, não é? Elas são bonitas sim. Só que de longe.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Valores de x

Eu não faço ideia do que estou fazendo aqui. Cálculos e números? É, esses certamente são bons motivos. Fora isso? Não faço ideia. 
Eu só queria expandir o meu mundo, sabe? Não quero mais ficar aqui. Olha, eu até gosto de engenharia genética, acho interessante como o petróleo funciona e sou curiosa quando estudo juntas de dilatação. Mas esse não é o meu lugar.
Como se eu fosse um peixinho fora d'água, me ensinam a fazer cálculos, "entender" fórmulas, resolver contas, deduzir questões contextualizadas. Contextualizadas aonde? 
Não são poucas as vezes que suspiro, cansada, querendo voar. Eu não quero mais ficar fazendo só conta e me preocupando só com seus números frios que não dizem absolutamente nada sobre mim. Respeito os que vivem assim, mas, sinto muito, eu não.
Eu quero estar onde a vida acontece: quero estar nos cálculos de economia, de luta humana, de valores, de vidas, defendendo ideias, pessoas e sonhos, e não fórmulas prontas. Olha só, eu nem sei quais são a pronúncia e a grafia corretas de Bhaskara.
Mas eu sei que o meu sonho é maior do que esse simples quarteirão. Eu quero fazer mais. Eu posso fazer mais.
O que me lembra, por enquanto e mais uma vez a, b, c, d ou e... exercícios de dilatação.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Chá ou café?

Não adianta, sou teimosa. Não sei fazer jogos, não sei ser mais ou menos, divisão, zero a zero. Se eu gostar de você, será de você, por você e você, só você. Eu sei que fiz teatro quando era mais nova, mas nesse caso não sei representar. Sou somente eu, e preciso que você seja somente você.
Não consigo conviver no morno - meu café é quente, meu chá é gelado. Se você me encantou de alguma maneira, eu vou te mostrar isso da maneira mais sincera e transparente que eu sei, sendo eu chá ou café. Mas eu preciso que você seja, como poetizou Leminski certa vez.
Por favor, não seja chá em temperatura ambiente, café a 24 graus Celsius. Não seja só um número, não seja indireta - por favor, me conte tudo. Não seja, salvo chá ou café, líquido, volátil, escasso, que escorre por entre os dedos.
Eu só sei ser coração. Sentimentos merecem plenitude. Eu sinto, e eu sinto muito. E se você não consegue ser quente ou frio nessa cafeteria, evapore, por favor.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Nós?

Ambos somos desajustados, românticos enrustidos, silenciosos gritando em pensamento, sem tempo, com mais interrogações do que ponto e vírgula, exclamação e ponto final.
Talvez sejamos uma escola literária que ainda vai ser lida, escrita, estudada.
Por ora, mesmo sendo mistura, confusão, segredo, subentendido, eu quero ler, sem medo e sem razão, o que se esconde nesses olhos viajantes - e mais tarde (quem sabe?), no teu coração.
Existe delito previsto no código penal, passível de coerção, para quem partiu o coração de alguém que nem sabia tê-lo nas mãos?

sábado, 28 de maio de 2016

Outra crônica de dentro do ônibus

Passando de ônibus pela ponte que liga até Recife, avistei o Estelita. Sorri. Senti coisas bonitas, porque esse lugar é isso: ele é lindo, é vibrante, é antigo, é novo - é a minha cidade. 
E aí me dei conta, mais uma vez, de que a especulação imobiliária jamais erguerá nada tão bonito quanto o cais José Estelita. 
Há os que concordem, há os que destroem. Eu digo: é um dos cartões postais mais bonitos da cidade. O Estelita é lindo.


3 de fevereiro de 2016

8 de março

'Comemorei' o dia das mulheres estudando. 
De início achei um pouco chato, fiquei cansada - suspirei duas ou três vezes, enquanto resolvia as insistentes questões de transporte passivo e ativo. 
E foi aí que, quase por osmose, eu vi: não poderia ter tido coisa mais bonita do que passar esse dia estudando. Instintivamente me lembrei das minhas irmãs de perto e de longe, mudas e telepáticas, que dariam tudo para ter um livro nas mãos. Malala me ensinou isso a alguns anos.
Sorri. Lembrei em seguida de tudo o que nós, mulheres, conquistamos com força, doçura e esperança, fé, amor e um acréscimo de desobediência.
Respiramos luta, superação e girassóis.
Sou parte do gênero que não desiste nunca, que insiste, que sorri, que desabrocha na adversidade, e que assim, lindo, vira flor. Sou parte daquelas que sonham, que vivem e que acordam para ser poesia.
Ser mulher é continuar, e eu vou. Vamos?


8 de março de 2016

Moças

Eu quero ser reconhecida por quem eu sou, e não por quem aparento ser.
Só estou cansada de ter que aceitar em silêncio o quanto a beleza conta, o quanto um pó compacto influencia, o quanto o resto parece um nada sem tamanho.
Eu gosto de me maquiar. Mas eu gosto muito mais de ler, de debater, de escrever, de conversar, de discutir. Admiro as meninas que se pintam e as que não se pintam também - elas são lindas, cada uma a sua bela e singular maneira. Mas elas não devem ser vistas apenas em suas cores externas - isso é tão fugaz.
Eu não quero ser vista como uma bonequinha, por mais que eu adore a Holy Golightly. Atrás de cada esteriótipo de bonequinha existe uma história, existe um sonho, existe uma vida, e existe uma dor.
É que dói ouvir todos os dias que o estresse é culpa apenas da TPM. É horrível escutar para ser silenciosa o tempo todo, agir como se não tivesse sentimentos. Eu sinto, e eu sinto muito.
Eu só queria que o sol brilhasse para todos do mesmo jeito, sem rodeios, sem melindres. Cansei de ser melindrosa.
Ser menina é tão mais do que apenas usar laços e vestir rosa. Ser menina é amadurecer antes da idade permitir, é perceber o coração, é ser enérgica, tão cheia de ideias, tão cheia de vida, mas tão obrigada a calar a boca.
Eu não quero mais calar a boca. Eu quero ser mulher, porque eu lutei para me tornar uma. Em resistência encontro os meus sonhos, tudo o que escrevo, os diálogos, a vontade de ser ouvida, a voz que fala alto no meio da multidão.
Moças, por favor, não podemos fazer silêncio nunca mais.

15 de abril de 2016

De dentro do ônibus

Do lado de dentro, no lado de fora, conheço todos. Todos os dias vejo a senhora simpática do cabelo cacheado segurando uma bolsa de plástico - sempre séria, mas sorri quando eu sorrio pra ela.
Todos os dias a cobradora, sem graça e cheia de esperança, pergunta se a minha passagem tá trocada.
Vez ou outra encontro o seu Michel, ambulante, viajante, argentino alegre, apaixonado pelo Brasil. 
Todos os dias passo por aquela ponte bonita, e todos os dias vejo os mesmos pescadores - vidas tão diferentes. Jogam as redes, puxam redes, ao mesmo tempo em que as crianças estão do outro lado brincando no rio.
Todos os dias vejo o cais, os pássaros, o vôo. Me imaginando voando junto com eles, todas as vezes.
No centro da cidade é uma beleza só! É tanta placa, tanta gente, tanto rosto, tanta cor, tanta palavra, tanta vida... é mais história naquela cidade do que as histórias que eu costumo contar.
Casas bonitas, prédios intrometidos. Pessoas apressadas, pessoas tristes, pessoas felizes. Pessoas. O povo todo reunido - ninguém se conhece, mas todos se olham.
Gosto de pensar que conheci todos eles um dia. Viajando.
Não desci no centro da cidade nesses dias todos, só uma vez ou outra. Meu destino é sempre mais pra lá. Mas indo e vindo, voltando, chegando, mesmo sem descer, eu conheço todos eles.
O caminho fica mais bonito quando sabemos por onde andar - e por onde olhar.

26 de abril de 2016

Se você soubesse

Ah Deus, se você soubesse! É diferente demais agora. Totalmente diferente. Você, tal qual aquele movimento no estelita, ocupa os meus pensamentos mais bonitos.
Casal de mão dada, café quentinho, sorriso sem desculpa, abraço apertado, lindo, tudo contém você. 
Você nem sabe, mas ah! Se soubesse... há tempos está contido no meu coração.


23 de maio de 2016

Dança

Quando você quis me tirar para a valsa, eu não quis. Não sei valsar, eu não sou de dançar conforme a música - acho que você sabe. Mas a melodia tocou mais uma vez, e outra... eu percebi que é você aquele, que todos chamam de "o pé de valsa".
Quero dançar com você. Dançar pela vida, pelos trilhos dos trens, em cima dos prédios, nos tetos das casas grandes, entre os viadutos, afundando os pés no mangue, mãos dadas, corações juntos, dança. 
Eu sei. Não ensaiei. Não cantei música alguma. Eu nem sei tocar instrumento de corda. Nem percussão. Mas agora eu sei que é você aquele por quem se espera ansioso a chegada ao baile. Sei que é você, que sempre presente, se apresenta mesmo na ausência. E foi na ausência que te notei.
Eu sei que você me pediu a concessão da honra, e eu neguei - mas agora eu te peço, sendo mulher e flor, pode vir. Flor que rodopia - que o vento tirou pra dançar - mas é com você o meu encontro de passos. Passo a passo, você.
Quer dançar comigo?


26 de maio de 2016
Você e seu papo incrível sobre urbanismo e beleza em miudezas. Você, valorizando todos os meus livros e poemas. 
Você, que como eu, diferente de tanta gente apressada, sempre anda distraído, sendo gente, sendo coração. 
Você, cheio de estradas e veias abertas. Você, que deixa o tempo passar em segundos numa xícara de café.


3 de maio de 2016

Priscila

Hoje foi um dia especial.
Não estava nada bem, saí da sala de aula hoje de manhã me sentindo muito mal, no meio da explicação do professor. E nessa rotina louca, imaginei que ficaria ali na escadaria por alguns minutos, me recompondo, em silêncio, e em seguida voltaria para dentro da sala mais uma vez. Eu ia tentar ficar bem.
Mas não foi isso que aconteceu.
Priscila, a secretária mais fofinha do curso de humanas e linguagens, me viu, e correu pra ver como eu estava. Parece bobo, não é? Mas Priscila está fazendo uma pós graduação à distância, tem que se dividir entre trabalho e fichamentos, entre coração e obrigações.
E no meio de todas essas escolhas, ela decidiu me acolher. Foi com tanta doçura o modo que ela perguntou como eu estava, como ela pediu pra eu sentar - eu, toda estressada pensando na aula que estava perdendo - e ela, apesar de tanta pressa e rotina, cheia de humanidade e coisas boas, parou tudo que estava fazendo até se certificar de que eu estava bem.
No meio de horários marcados e atrasos, eu reconheci uma verdadeira amiga.
Priscila tem um coração gigante, que me fez, apesar de um dia difícil, ter esperança.
O amor vence o mundo todos os dias!


13 de maio de 2016

Hoje eu conheci a Vitória

Hoje eu conheci a Vitória.
As aulas acabaram, e eu tive que voltar correndo pra casa, porque hoje vou viajar em família, e todo mundo me apressou pra eu chegar mais cedo. 
Corrigi a redação com o professor, e corri pra pegar o ônibus, que por sinal demorou mais do que nunca. Nada do Candeias, muitos Piedade, mas eu não queria desistir.
De repente começou a chover muito forte! Esse tempo louco da cidade, né? Não teve jeito. Tive que pegar um insistente Piedade. Ônibus lotado
, janelas fechadas, tudo abafado. Sentei nos degraus da porta do meio, coloquei os fones, desenhei um solzinho no vidro, e fiquei lá, driblando as bolsas pesadas e os pés apressados.
E aí, ali perto do Ponteio, ela entrou no ônibus. Bem pequenininha, com o cabelo bem enroladinho, olhar esperto, usando all star preto. Sorri na mesma hora, porque automaticamente lembrei de mim naquela idade. Ela tinha as mesmas marquinhas de alergia de muriçoca que eu costumava ter quando era pequena. Era esperta, alegre, sentou nos degraus também, do meu lado.
Depois de cinco minutos a gente não parava de conversar. Vitória tem onze anos e começou a andar de ônibus semana passada. Ela riu quando eu disse que só faz um ano que eu comecei a andar. É monitora de matemática, e riu mais uma vez quando eu disse que era péssima em exatas. Vitória é toda decidida: quer ser engenheira eletrônica quando crescer.
Fiquei feliz de o ônibus ter atrasado, porque aí eu a conheci. E lembrei de toda a minha infância, dos meus onze anos, e de como eu era... tão parecida com ela. As mãos pequenas, o olhar pensativo, o sorriso largo.
No meio da cidade, dentro do coletivo, nas ruas, precisamos olhar mais para o lado e perceber a história de cada um. Vitória me deixou nostálgica e com vontade de rever fotos antigas. De repente a chuva e a lotação estavam em segundo plano. As surpresas e as conversas do caminho são as melhores.


20 de maio de 2016

Pequena crônica da parada de ônibus

Hoje mais cedo, esperando o ônibus chegar, veio uma senhorinha linda pra a parada e ficou comigo esperando. Com uma blusa de poá, óculos escuros, bem bonita.
Quando o ônibus chegou vazio, os olhos dela brilharam! Ela sorriu tanto, olhou pra mim toda contente, e disse: "Olhe, está vazio! Que felicidade!" 
Foi o tipo de alegria que contagiou quem estivesse por perto. É que esses ônibus a essa hora, hein? Só a graça. 
Por um momento fui grata. São esses pequenos momentos de felicidade que me fazem ter fé. É tão simples, mas eu to sorrindo até agora.

27 de maio de 2016

Ser mulher

Não deveria doer ser mulher, mas dói. 
A sensação mais horrível do mundo é ter que sair praticamente correndo da parada de ônibus até chegar em casa, com as chaves entre os dedos, olhando para os lados, com medo não de monstros, mas de homens. Homens?
Uma mulher ser estuprada por 30 homens não é normal. Dói até o fundo da alma, machuca a dignidade, rasga o corpo, sangra. Poderia ser eu. Poderia ser qualquer uma de nós, mulheres. 
Isso não é uma piada de rede social. Não é uma notícia que repercutiu agora e depois vai ser abafada. Isso é todos os dias. Isso é o medo de andar sozinha à noite, as privações de simplesmente ser mulher, o direito ignorado, as vozes silenciadas, bofetadas na alma. Ser mulher não é pra machucar. Não é pra ter medo. Mas machuca. Mas amedronta.
Vivemos numa sociedade que nos violenta, não só fisicamente, mas formalmente, quando normatiza, quando trata como trivial, quando chama de frescura, quando diz que é drama.
Isso não é um gráfico. Nós não somos uma média. Nós somos mulheres. Isso não pode passar. Isso aconteceu hoje, com uma mulher que, independente de qualquer coisa, é uma mulher. Amanhã vai ser com qual de nós?
Onde fica o respeito? Onde fica a dignidade? Onde fica o direito a vida?
Por favor, não abra a boca pra falar do que você não sente na pele. Nunca mais diga que é drama. Isso existe. Isso dói. Isso precisa parar.
Nós precisamos viver.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Palavrantiga

Eu nunca fui muito boa com números, como vou conseguir contar cada pedacinho do meu coração partido? Faltei algumas aulas de Biologia, não sei como se socorrem paradas de sorrisos; o que se faz numa embolia de esperança? 
De repente ouço uma música tocar numa janela de um prédio ao lado. É Palavrantiga. - Bem antiga - sorrio. Essa eu conheço. Eu era mais nova quando ouvi essa canção. Eu também estava precisando. Como um socorrista pronto para me abraçar, lá estava ela para me socorrer. Lá estava Deus me socorrendo mais uma vez. Eu não preciso de mais uma canção de amor. Talvez eu não consiga contar parte por parte do meu órgão pulsante, mas conheço quem se preocupa em juntar cada caquinho no lugar. Conheço quem sabe onde eu estou, quem sabe quem sou. Ele me chama de filha. De princesa! Ah, de princesa... existe coisa mais linda do que isso? Não, não existe.
O vizinho não sabe de nada disso que escrevo, que sinto. (escrever é sentir) Talvez nunca saiba. Mas o meu Pai sabe. E ele sempre coloca a trilha sonora perfeita. Esse som de amor que é do tamanho do mundo, mas cabe dentro de um abraço. Tenho que agradecer a Ele todos os dias. Eu não mereço, mas Ele me ama. E eu amo o meu Pai.


3 de abril de 2015

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Pequena crônica do grande preço

Tudo virou mercadoria. Tudo virou cédula, preço, valor. Me pergunto onde estão as relações de verdade, os bons sorrisos, o bom e velho amor.
Hoje vi um senhor vendendo um cachorrinho de apenas um mês por 150 reais. Um mês. Calma aí, moço. O dinheiro é tão importante que não se pode esperar mais três ou quatro meses? Esse filhote teve o tempo mínimo para se aninhar no colo de sua mãe? Teve tempo de mamar e se nutrir como todo animalzinho precisa e merece?
Um bebê. Um bebê como eu fui, como você foi. A única diferença é que até hoje bebemos leite, até hoje temos nossa casa, nossa família. Mas até isso parece estar sendo esquecido. 
O que mais falta virar investimento? O que mais falta virar mercadoria? Quase tudo tem um preço e uma etiqueta, mas o que mais me impressiona é que hoje em dia quase todos parecem estar dispostos a pagar.


7 de junho de 2015

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Fotografia

Comparando antigas fotografias com as recentes percebi que quase tudo muda. O tempo remenda, fecha, dobra e borra quase que completamente tudo.
O meu sorriso continua praticamente o mesmo, mas o meu olhar mudou. Em meu sorrir meus olhos ficaram maiores; porque eu quero enxergar o mundo com o meu sorriso, mas preciso aprender a vê-lo, por mais que eu proteste e me recuse a ver com outros olhos que não os do coração. Apesar do mundo, esses sempre serão os melhores.
Aprendi a não me esconder atrás da franja. Em dois anos aprendi a falar mais baixo, mais calmo e mais humilde. Meus pés já pisaram muito chão agora. Eu já tenho os famosos 18, mas todos os dias é como se eu acabasse de nascer. Meus olhos já viram tanto... já choraram, já sorriram, já dançaram... mas continuam abertos. Aprendi a não me reter em teorias e exclamações. Por mais que eu tenha certezas, hoje eu aceito a inconstância da interrogação.
Aprendi que amor não se pede, também não se mede nem sugere, ele é. E nós também podemos ser. Aprendi que não ter medo de altura é bom, que todo ônibus tem uma história diferente, que dançar sem saber dançar é incrível, que abraço é melhor que palavra, que sorvete de casquinha cura quase toda cara amarrada e que sorrir é de graça. Ainda bem.

26 de abril de 2015

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Azul da cor do céu

Às vezes me flagro pensando em como será quando estivermos lá no céu. Ninguém sabe ao certo como vai ser. Aliás, ninguém sabe mesmo como vai ser! Fico maravilhada, sorrio feliz ao lembrar de que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram o que Deus tem preparado pra aqueles que o amam... daí me lembro dos grandes cineastas e escritores. Tanto do que vi, ouvi e li nesse mundo é tão lindo... tantas cartas, tantas letras, tantas músicas... fecho os olhos e me recordo de, apesar de certa feiúra, quanta beleza já vi nesse mundo. E nada disso junto, multiplicado, equacionado ou somado... nada disso se compara ao que Ele tem guardado pra quem guarda e compartilha a linda verdade.
Eu não sei se no céu vamos nos lembrar uns dos outros, não sei se você vai lembrar de mim, mas gosto de pensar e de saber que ao menos uma coisa é certa; ao menos uma coisa eu sei: no céu vai ter amor. Amor amor amor. É lindo lembrar que Ele é amor. E no céu minha casa vai se chamar amor, vou caminhar no amor, vou viver no amor! É tão maior do que imaginamos. Foge a definições vagas.
Não vai ser tudo o que sempre sonhamos, porque os nossos sonhos são pequenos e silenciosos se comparados ao caminho, à verdade e à vida que vamos viver. Tudo é tão maior. E eu posso falar sobre isso mais sete mil vezes. Nada vai ser equivalente. E quer saber? Isso me faz sorrir. "Quando se trata de descrever o céu, somos todos felizes fracassados".

1 de março de 2015

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sorvete e pé de pitanga

Mas você está triste, pra baixo, não aguenta mais grosseria... não aguenta mais pessoas apressadas, irônicas, afiadas... 
Não aguenta mais viver num mundo onde o errado é o certo e o certo... errado. 
Vou te contar um segredo: você não precisa ser assim. 
Mais um segredo? Isso muda. 
Quer outro segredo? Você é quem pode mudar isso! 
E aí você franze o cenho, coça a cabeça e pensa duas, três vezes: "Eu? Mas como?!"
Insisto em repetir. É, você. Você mesmo.
Sabe aquele seu vizinho chato, de cara fechada e olhar carrancudo? Você decide se vai deixar o seu sorriso dar um bom dia para ele ou se vai deixar que aquele mau humor vire a primeira fotografia do seu início de rotina. Você quem decide se vai reclamar do sol quente ou agradecer por não ter feito chuva. Mas chuva também é bom... você pode se lembrar dos dias da sua infância, quando aqueles pingos caindo no seu rosto eram a melhor e mais feliz sensação do mundo.
O que falta hoje é ser criança. Lembrar do simples. Olhar pra o céu e ver uma nuvem com formato de sorvete de baunilha. Olhar uma árvore pequena e lembrar do pé de pitanga do vizinho. Ser feliz principalmente quando chove!
Eu não tenho antídoto anti-monotonia, nem comprimidos anti-chatice alheia... mas eu sei que a resposta vem de mim. E o sorriso? Bem, ele também pode vir de mim. E contra o sorriso? É... pra ele também não existe antídoto. E isso é que é lindo. Não é?


14 de março de 2015

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Detalhes

"Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer". 
Gosto desse verso do Roberto, de sua redundância e de suas antíteses. Em tantos momentos somos detalhes. E em tanto detalhe tudo vira momento.
Gosto dos detalhes. Aprecio miudezas. Me encanta pensar no botão daquela camiseta branca, na cor do cadarço do sapato bonito, no sorriso fácil, nos dedos pequenos e nos olhos fechados entre os abraços. Acredito que os detalhes sejam a grandeza de tudo. É no detalhe que conhecemos o sentimento, o sentido, o errado, o certo, o distraído. Às vezes um detalhe passa despercebido, às vezes os olhos se distraem. Mas isso é quase mais um dos tantos detalhes.
Enxergo o detalhe dos olhos que brilham cor de estrela, a lágrima que não quer ser, palavra que custa pra descer, frase dita no gesto, mãos dadas, apreço. O detalhe do beijo na testa, do coração após um bom dia, do café quentinho em dia frio, da meia, do inteiro, do tudo, do todos. Detalhe é lembrar do simples.
Detalhe é ser amor em cada retalho, em cada reparo, e... sem alarde! Em cada detalhe.

2 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Já sonhou hoje?

Sonhos. Afinal, quem nunca teve um sonho pra sonhar?

Foi assim que comecei um dos discursos mais bonitos que tive a honra bonita de escrever. Alguns anos se passaram desde essas palavras, mas é incrível a maneira como elas continuam ecoando no meu coração.
Eu tenho um sonho. Vou lutar por ele todos os dias. Sabe, lutar mesmo. Não com espadas ou armaduras pesadas, mas com toda a vontade que eu tiver aqui dentro. 
Esses últimos dias foram difíceis e cansativos, doía tudo - principalmente o sonho. Aquele que está sempre aqui, latente, batendo junto, vivendo e revivendo. Eu não vou deixar ele morrer. 
Eu quero realizar o meu sonho de fazer alguma coisa linda pelo mundo - quero realizar esse sonho difícil, mas real, de ser guiada pelo amor e por amor. 
O mais belo disso tudo é olhar pra o lado e ver quantos também estão sonhando. Por favor, sonhem. Eu falei no discurso, nas palavras escritas, e estou falando de novo: vamos sonhar. 
Eu não quero o parecido, o semelhante, o quase lá. Eu quero ele, o meu sonho. 
É árduo, sabe? Parece aqueles arranhões de quando eu era mais nova e ralava o joelho todo. Doía, viu? Doía muito. Mas sarava. E eu estava pronta pra mais uma aventura.
Eu estou pronta. E você também, sabia? É, você, nem ria. Todos nós estamos prontos pra o sonho, pra viver. Vamos atrás dele! Ah, o sonho...
Eu fico sorrindo toda boba só de pensar no dia em que ele vai se realizar - eu vou dizer aos meus filhos e aos meus netos, e nós vamos rir disso juntos, e eu vou continuar pronta pra sonhar com eles.
A gente só não pode desistir. Desistir nunca. Nun-ca, ouviu? Vamos sonhar, que estamos muito perto. 
Bons sonhos.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Casal de amor velhinho

Não consigo explicar o quanto eu adoro ver um casal de velhinhos caminhando na rua. E quando é na mesma rua que eu, meu Deus... eu faço questão de parar um pouco todo o meu caminho, toda a minha rotina e o meu relógio só pra olhar um pouco mais. 
Esse casal que vi hoje mais cedo foi especialmente singular. Ele parecia ser um pouco mais velho que ela, mas mesmo assim era ele quem carregava as sacolas com uma só mão... é que a outra estava ocupada entrelaçada na mão dela. 
E de repente percebi que amor não tem idade. 
Paciência, bondade, gentileza, doçura... ainda bem que o bonito é atemporal. Num mundo onde existe tanta gente arrastando suas sacolas por aí, olhando para o chão, eles caminhavam juntos. Amor que é amor resiste a peso, a tempo, a ruga, não tem preço. 
Amor anda devagar como aquele casal, não tem pressa... buzinas, carros, pistas, semáforos... não importava. O sinal sempre estava verde para eles. Verde como a esperança do pra sempre. Eu não conseguia parar de sorrir. Perdi o meu ônibus, mas valeu a pena parar pra ver o amor passeando pela rua. 
O amor é novo, é velhinho... o amor é lindo.

9 de fevereiro de 2015

sábado, 9 de janeiro de 2016

Crônica do ônibus

Não exagero quando digo que tem sido maravilhoso andar de ônibus. Não tão maravilhoso quando faltam cadeiras e sobram passageiros, ou quando você passa algum tempo esperando numa parada... digo maravilhoso quando lembro de cada história que pude viver, conhecer e fazer parte mesmo que em poucas horas dentro de um coletivo.
Hoje conheci um menino. Devia ter uns sete anos. Cabelo lisinho, mãos gordinhas, tava tão cansado... encostou a cabeça na janela e... dormia. Entre lombadas, buracos, pessoas falando alto, entra e sai, vai e vem, ele dormia. Um lindo menino. - Ele pega esse ônibus todos os dias, moça. É um bom menino, gosta de conversar. Tem dia que ele senta lá atrás, mas hoje ele tá aqui na frente pra ficar perto dessa janela. Às vezes é meio ruim porque o sol bate forte mas ele nem liga... ele se preocupa mesmo é em sentir o ventinho. E dorme tranquilo tranquilo. - o cobrador me disse olhando para ele com carinho.
Sentei ao lado do mocinho. Não o conhecia, mas naquele momento era como se ele fosse parte da minha história de uma maneira muito especial. Eu sei que isso não se vê todos os dias, mas olhando para aqueles pézinhos... aqueles pés tão pequenos em sapatos tão gastos, rasgados e velhos, me senti na responsabilidade de ficar ali, ao lado dele. Enquanto eu pudesse. Naquele momento eu era como a irmã mais velha de um menino que eu nem conhecia mas já sentia tanto. Eu vi toda a inocência em olhos fechados. Toda a serenidade nos suspiros que ele dava enquanto dormia.
Tenho quase 18 anos e só comecei a andar de ônibus agora... antes sempre tinha algum carro pra me levar e eu tinha o banco traseiro todo pra me deitar. Mas ele... foi indescritível vê-lo ali, tão novo, tão desconfortável, mas com tanta paz. Aquele menino ao acordar me transmitiu felicidade. Ele me disse sorrindo: - Eu só dormi porque sei onde fica minha parada. Já aprendi! - ele se explicou quando perguntei onde ele ia descer. - Ah... e essa janela é boa demais! Dá pra dormir bem e tem até um ventinho no rosto - sorri junto.
Ele não sabe, mas hoje me ensinou muito mais que uma parada. Ele me ensinou a dar aquele sorriso de criança... independente dos sapatos, do transporte, do sol quente... ele era grato pelo vento que fazia. Ele era feliz, e o jeito que sorriu pra mim me fez ser feliz com ele. Me fez ser grata também. A maldade do mundo não fez mal nenhum àquele sorriso bonito. E ele foi embora.
Quero um dia poder ser igual ao menininho: quero sentir o vento ao invés do sol quente. Quero sorrir no meio do barulho e das caras feias. Descansar até no esburacado. Continuar caminhando com o melhor de mim, mesmo que meus sapatos estejam rasgados. Deus me dá mais que um sapato.
Hoje foi maravilhoso.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Resenha: Emma, Jane Austen

Nunca tinha feito nenhuma resenha quanto aos livros que já li, mas intuo que esse livro, em especial, mereceu ser o assunto da primeira. Sou um pouco suspeita para falar de Jane Austen - escritora preferida, né? Como ser imparcial? -, mas eu vou tentar! Espero que gostem.

Uma das coisas que mais me encanta na escrita de Jane Austen é toda a sinceridade e amor que ela inspira. As protagonistas de Jane são humanas, singulares e teimosas - e, mesmo separadas de nós por algumas centenas de anos, conseguem ser lindas e compreendidas até mesmo nos dias de hoje. 
Emma Woodhouse não foi diferente. Creio que, de todas as personagens de Austen, Emma foi a que mais me cativou. Apesar de ser, de acordo com a própria Jane, "a heroína que ninguém, além dela própria, iria gostar muito", Emma consegue conversar com o leitor como se fosse uma velha amiga. Ela tem falhas, imperfeições, e talvez seja esse o conjunto mais bonito dessa obra, porque foi exatamente isso que fez com que, vez ou outra, eu suspirasse comigo mesma, dizendo: "Eu imagino como ela se sente. Imagino muito bem".
De capítulo em capítulo, pude acompanhar o quanto Emma crescia, em alma e coração, o quanto ela conseguia se renovar sem nunca deixar de ser ela mesma - extremamente divertida e romântica. 
Me encanta o modo como o livro aborda cada personagem e suas particularidades. 
Em uma época tão diferente da nossa, é tão maravilhoso poder constatar que, apesar de regras e limitações, os sentimentos existiam de uma maneira linda e pura. Apesar de tanta imposição, o amor floresceu de uma maneira linda nesse livro que consegue ser doce, amargo e belo em todas as linhas. 
Constatamos a doçura do destino e das peças que tantas vezes ele nos prega - a curiosidade, a amizade, as boas intenções, o perdão e as razões que direcionam cada um dos personagens faz com que seja impossível não se identificar com ao menos um personagem do romance Emma.
597 páginas recheadas de ironia, segredos, sorrisos, tropeços e bons sentimentos. 
Se você for ler, recomendo atentar a todos os detalhes. É neles que vive a verdadeira genialidade de Jane Austen. 

Preciso mesmo dizer que amei?  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Doutor, é dor de coração.

- Não sei mais o que fazer.
- O que houve? - Perguntou o meu médico pela quinta vez após a minha mesma assertiva. 
- Esse é o problema, doutor... o que houve? Eu não sei. Como houve? Eu não entendo. Tudo o que eu sei é que está tudo errado. Estou com medo, doutor. Sofro de idas. De vindas. A dor, aqui, olhe... a dor não é de cabeça, de ouvido... é dor de coração. - debulhei-me em lágrimas. 
- Fique calmo. 
- Calmo? Você não estaria se estivesse no meu lugar. Pra onde fugir se é de si mesmo que você pretende se esconder? Para onde ir se é de seu velho eu que você precisa se livrar? O que beber, qual remédio tomar, qual o antibiótico pra o coração partido? Estou sem rumo dessa vez, doutor. Irônico, não? Logo eu. Sei que todos já tiveram seus respectivos corações partidos, juro doutor, não é masoquismo, mas no momento eu preciso sentir essa dor. Não sei mais o que fazer, eu só sei que a culpa foi minha. Olhe só... fui procurar amor onde não tinha. Bati a cabeça com força. Mergulhei no raso. Bebi o sem sentido, me embriaguei com o vão. Me enchi do vazio. Sinto frio. Eu sei onde se encontra o amor. Eu sei onde está a fé. Estou envergonhado. Eu preciso me encontrar. Mas eu sei onde me achar. Eu sei pra onde ir - e me levantei. Segurei firme o meu crucifixo. Essa dor não tinha diagnóstico humano. Eu precisava do amor para me curar. Mas veja que ironia... sem pedido, sem hora marcada, sem mérito, sem consulta e sem antibiótico... ele me curou. O amor já havia me curado. Mas eu preciso me deixar curar por ele. Todos os dias. Olhei mais uma vez o crucifixo.
- "Só a cruz esconderá quem você não é". - sorri. - Obrigado.


24 de janeiro de 2015