sexta-feira, 10 de março de 2017

Querido Dante,

Sou confusa, eu sei. Sou medrosa, eu sei, também. Tenho medo de tantas coisas, que de repente acabo não fazendo nada. Como agora. Tô aqui, com a tua conversa aberta, te escrevendo um textão, mas eu provavelmente não vou te mandar, tu nunca vai ver, e tudo bem. 
Não sei porque sinto toda essa insegurança e medo, Dante. Eu não queria sentir. Não queria porque eu estou apaixonada por você. Apaixonada porque você nunca desistiu de mim. Sempre me ouviu. Até as partes ruins. Até as partes mais chatas de se ouvir. Eu entendo você estar magoado. Por favor, não fique magoado pra sempre. Eu espero que um dia eu possa sentir menos medo. Espero que possamos, os dois, crescer mais em Cristo, e que não façamos nada por algo que nos falte, mas sim por algo que nos transborde - o amor que conhecem como ágape. Você me encanta em tantos detalhes. Você é tão lindo, e é impossível não ser apaixonada por você. Às vezes eu queria não ter ouvido nada do que as pessoas disseram de você. Às vezes só queria ter prestado atenção naquilo que nós estávamos tendo, e não nas especulações dos outros. Eu não sei se eu fiz errado em dar tanto valor a esses comentários, mas se eu fiz... agora já foi. Não vou te pedir pra me desculpar. Não vou te pedir pra voltar a falar comigo. Mas eu só queria te dizer que eu ainda imagino e acredito em nós num futuro. Talvez Deus tenha algo com a gente. Talvez não pra agora, mas eu sinto que tem. Talvez, quando eu for menos medrosa e insegura. Talvez, quando você for menos orgulhoso. Talvez, quando eu for menos preconceituosa. Talvez, quando a gente escutar mais a voz de Deus do que a voz das outras pessoas. Deus sabe o que diz a nosso respeito, não é? 
Diferente do que você me disse, quando estava triste demais, as oportunidades de Deus não se perdem - elas só seguem o seu curso. O seu caminho. O seu tempo. Que não é o nosso. Nós só precisamos parar de ter medo e deixar que Ele seja Deus. 
Eu sou medrosa, sim, mas estou segura de que, apesar de medos bobos, Deus age além disso - o amor lança fora o medo. 
Se isso entre nós for amor, um dia o medo será lançado fora. E eu sei que estaremos prontos, pois, ouvi isso e vou repetir a vida inteira, o universo foi feito para que nós estivéssemos aqui nesse momento. 
E estaremos.

Da - se estiver escrito - sua,
Beatriz.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Tu

Tua sensibilidade ao pôr do sol. 
As barroquinhas do teu sorriso.
Teu olhar enigma - quem sabe para onde olha? E o que olha?
Tua paz embrulhada em silêncio e calmaria.
Teu livro riscado e sem capa.
Tua voz não altiva, não autoritária - mas audível, necessária, representada.
Teu espelhar da eternidade. 
Tua simplicidade bonita em bermudas simples e camisetas brancas. 
Tua claridade no último lugar da fila. 
Teu amor no ouvir.
Teu cantar.
Teu dedilhar.
Teu compor.
Tu. 
Tu é lindo.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Fotografia

Eu não posso e eu não vou admitir que ainda estou apaixonada por você. Não dá. Orgulho, medo, saudade, um pouco mais de orgulho - esse sincretismo de inércia e tantas outras coisas misturadas - eu não vou te dizer nada. Não vou te contatar. Não direi que sinto sua falta, como eu costumava dizer vez ou outra. Mas a verdade é essa, que eu escrevo, mas não profiro em voz alta: é você, aquele que superou todas as minhas expectativas. Você, e todo o seu talento, toda sua beleza em lentes fotográficas e em graus de astigmatismo e alguma miopia. Você, que captura o bonito. Você, que eu nunca vou dizer - você, das livrarias e dos cafés.
Eu queria, mas não posso. Queria pegar todo esse orgulho e jogar bem longe daqui, pra ir aí te ver. Queria poder te mandar todas as poesias. Queria que fôssemos. Não somos. E eu sei que não seremos. Típico. Acho que todos os meus romances acabaram assim. Sem rodapé. Pretérito perfeito. Fim.
Talvez pudéssemos ser diferentes, afinal, fotografias, não é? Elas permanecem. Amareladas ou preto e branco, como o mundo daquele cantor - gostaria que tivéssemos permanecido.
Porque olhar suas fotos é lembrar de você - não, não estou falando de seus olhos ou do seu cabelo bagunçado. Talvez um pouco, mas não só isso. Lembrar de você ultrapassa fisionomias vãs e entra em paisagem e horizonte - em árvores de outono, em chãos, tetos de qualquer canto, miudezas: capturando o bonito, como você costuma fazer. Às vezes sorrio para mim mesma pensando em como você pôde capturar a beleza em mim também. Aquele momento passou, mas a foto - um jeito bonito de caracterizar uma lembrança - continua aqui. Ninguém clicou, nem imprimiu, não tem pixel - mas ela continua aqui.
Embora não existam fotografias nossas, você sempre estará nas minhas lentes.

domingo, 4 de setembro de 2016

You paint me a blue sky and go back and turn it to rain.

Fui boba. Sou boba. Permaneço sendo boba. Foi assim, fácil, rápido, me apaixonei por ele, acreditando que era tudo verdade... que eu poderia ser a única na vida de alguém. Bobagem, não é? Como todas as coisas que eu defendo e digo que são verdade. Olhe para mim: eu leio Jane Austen, bebo chá, sorrio com borboletas, choro dentro do banheiro, quando ninguém está vendo.
Tenho essa mania idiota de acreditar em todo mundo, em tudo... a pior mania de todas: acreditar que vou ser amada na mesma intensidade que eu amo. Boba. Mais uma vez boba. Ele nunca me amou. Eu nunca fui princesa - eu nem mesmo tenho uma coroa. Eu não consigo fazê-lo ficar, eu não consigo fazer as pessoas ficarem.
E eu, como tudo que eu faço, não sei o que fazer agora. Não temos culpa, não é? Não temos. Eu não quero mais amar. Eu vou trancar meu coração a partir de agora, por tempo completamente indeterminado. Eu não quero mais amar. Eu não sei nem o que é o amor. Ele existe? Eu não sei. Mas está trancado para mim a partir de agora.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ah, como dó...
Meu coração faz poesia, soneto, sarau e serenata - enquanto o teu, bicho inquieto, surpreendentemente adormece em um canto qualquer. E eu, em qualquer canto, acordada, nas cordas da viola que insiste mas ninguém vê. Ouviu? Intuo que não. Esse órgão tem sono pesado para a pena que é cantar para quem não parou pra escutar. 
Dói como dó. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Chuva de verão

Talvez esse tenha sido o meu maior erro: acostumada, nas aulas de natação e até comigo mesma, mergulhei de cabeça em alguém que era só uma poça de chuva deixada ali de manhã e que daqui a algumas horas ou minutos ia evaporar. Eu quis ser plenamente eu em quem talvez nem saiba o que é isso - ou talvez saiba, mas eu não quero saber disso agora. Fui clima em quem só foi tempo, garoa. E foi. Ele é mais velho, mas sente muito menos do que eu. O que fazer? Eu só tenho dezenove. Talvez a certidão de nascimento dele queira atestar que ele é mais centrado, mais experiente, com mais caminhos, mas... quer saber? Eu penso e presenciei algo completamente diferente. Me apaixonei por um rapaz pelo que ele era, foi ou deixou de ser - ele me falava de suas viagens, e eu sorria imaginando cada episódio bem narrado. Ele falava com propriedade coisas sobre igualdade, movimentos sociais, empatia e beleza em todos os segmentos - ele até me chamava de bonita, também. E eu juro que acreditei nisso todas as vezes que ele disse. Mas o tempo - implacável tempo nos ponteiros e passos - passou. E com ele foram os discos, as risadas, as canções, as xícaras e os interesses. As vontades? Elas também passaram, como os carros passam, como a chuva cai, como a poça seca. Ele foi chuva - chuva bonita, acrescentei. Mas que pena. Foi só mais uma transitória, inconstante, passageira e acabada chuva de verão. - Sorri. Nem precisei olhar para o céu. Estendi as mãos para fora, e... viu? Parou.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Luzes da ponte

Hoje voltei pra casa do lado da janela que dá pra as luzes de perto do rio - aquelas bem bonitas à noite, sabe? Elas.
Passei bem ao lado delas, olhei bem... algumas estavam apagadas, uma estava queimando, a maioria acesa. Nada de incomum, nem de tão belo.
Aí o ônibus foi se afastando. Se afastando cada vez mais. Até que chegou na ponte. De lá vi as luzes mais uma vez. Caramba! Maravilhosas! 
O reflexo delas na água do rio, o contraposto com o céu escuro - elas ali, de longe, pareciam milhares de estrelas alinhadas. E foi aí que eu entendi. De longe.
Lembrei de você. De longe, bonito. Belo como as luzes estrelas da ponte. Mas de perto não dá tão certo quanto eu imaginei. Bem que eu queria, mas isso é imprevisível. Mas bem... são as luzes, não é? Elas são bonitas sim. Só que de longe.