terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sorvete e pé de pitanga

Mas você está triste, pra baixo, não aguenta mais grosseria... não aguenta mais pessoas apressadas, irônicas, afiadas... 
Não aguenta mais viver num mundo onde o errado é o certo e o certo... errado. 
Vou te contar um segredo: você não precisa ser assim. 
Mais um segredo? Isso muda. 
Quer outro segredo? Você é quem pode mudar isso! 
E aí você franze o cenho, coça a cabeça e pensa duas, três vezes: "Eu? Mas como?!"
Insisto em repetir. É, você. Você mesmo.
Sabe aquele seu vizinho chato, de cara fechada e olhar carrancudo? Você decide se vai deixar o seu sorriso dar um bom dia para ele ou se vai deixar que aquele mau humor vire a primeira fotografia do seu início de rotina. Você quem decide se vai reclamar do sol quente ou agradecer por não ter feito chuva. Mas chuva também é bom... você pode se lembrar dos dias da sua infância, quando aqueles pingos caindo no seu rosto eram a melhor e mais feliz sensação do mundo.
O que falta hoje é ser criança. Lembrar do simples. Olhar pra o céu e ver uma nuvem com formato de sorvete de baunilha. Olhar uma árvore pequena e lembrar do pé de pitanga do vizinho. Ser feliz principalmente quando chove!
Eu não tenho antídoto anti-monotonia, nem comprimidos anti-chatice alheia... mas eu sei que a resposta vem de mim. E o sorriso? Bem, ele também pode vir de mim. E contra o sorriso? É... pra ele também não existe antídoto. E isso é que é lindo. Não é?


14 de março de 2015

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Detalhes

"Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer". 
Gosto desse verso do Roberto, de sua redundância e de suas antíteses. Em tantos momentos somos detalhes. E em tanto detalhe tudo vira momento.
Gosto dos detalhes. Aprecio miudezas. Me encanta pensar no botão daquela camiseta branca, na cor do cadarço do sapato bonito, no sorriso fácil, nos dedos pequenos e nos olhos fechados entre os abraços. Acredito que os detalhes sejam a grandeza de tudo. É no detalhe que conhecemos o sentimento, o sentido, o errado, o certo, o distraído. Às vezes um detalhe passa despercebido, às vezes os olhos se distraem. Mas isso é quase mais um dos tantos detalhes.
Enxergo o detalhe dos olhos que brilham cor de estrela, a lágrima que não quer ser, palavra que custa pra descer, frase dita no gesto, mãos dadas, apreço. O detalhe do beijo na testa, do coração após um bom dia, do café quentinho em dia frio, da meia, do inteiro, do tudo, do todos. Detalhe é lembrar do simples.
Detalhe é ser amor em cada retalho, em cada reparo, e... sem alarde! Em cada detalhe.

2 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Já sonhou hoje?

Sonhos. Afinal, quem nunca teve um sonho pra sonhar?

Foi assim que comecei um dos discursos mais bonitos que tive a honra bonita de escrever. Alguns anos se passaram desde essas palavras, mas é incrível a maneira como elas continuam ecoando no meu coração.
Eu tenho um sonho. Vou lutar por ele todos os dias. Sabe, lutar mesmo. Não com espadas ou armaduras pesadas, mas com toda a vontade que eu tiver aqui dentro. 
Esses últimos dias foram difíceis e cansativos, doía tudo - principalmente o sonho. Aquele que está sempre aqui, latente, batendo junto, vivendo e revivendo. Eu não vou deixar ele morrer. 
Eu quero realizar o meu sonho de fazer alguma coisa linda pelo mundo - quero realizar esse sonho difícil, mas real, de ser guiada pelo amor e por amor. 
O mais belo disso tudo é olhar pra o lado e ver quantos também estão sonhando. Por favor, sonhem. Eu falei no discurso, nas palavras escritas, e estou falando de novo: vamos sonhar. 
Eu não quero o parecido, o semelhante, o quase lá. Eu quero ele, o meu sonho. 
É árduo, sabe? Parece aqueles arranhões de quando eu era mais nova e ralava o joelho todo. Doía, viu? Doía muito. Mas sarava. E eu estava pronta pra mais uma aventura.
Eu estou pronta. E você também, sabia? É, você, nem ria. Todos nós estamos prontos pra o sonho, pra viver. Vamos atrás dele! Ah, o sonho...
Eu fico sorrindo toda boba só de pensar no dia em que ele vai se realizar - eu vou dizer aos meus filhos e aos meus netos, e nós vamos rir disso juntos, e eu vou continuar pronta pra sonhar com eles.
A gente só não pode desistir. Desistir nunca. Nun-ca, ouviu? Vamos sonhar, que estamos muito perto. 
Bons sonhos.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Casal de amor velhinho

Não consigo explicar o quanto eu adoro ver um casal de velhinhos caminhando na rua. E quando é na mesma rua que eu, meu Deus... eu faço questão de parar um pouco todo o meu caminho, toda a minha rotina e o meu relógio só pra olhar um pouco mais. 
Esse casal que vi hoje mais cedo foi especialmente singular. Ele parecia ser um pouco mais velho que ela, mas mesmo assim era ele quem carregava as sacolas com uma só mão... é que a outra estava ocupada entrelaçada na mão dela. 
E de repente percebi que amor não tem idade. 
Paciência, bondade, gentileza, doçura... ainda bem que o bonito é atemporal. Num mundo onde existe tanta gente arrastando suas sacolas por aí, olhando para o chão, eles caminhavam juntos. Amor que é amor resiste a peso, a tempo, a ruga, não tem preço. 
Amor anda devagar como aquele casal, não tem pressa... buzinas, carros, pistas, semáforos... não importava. O sinal sempre estava verde para eles. Verde como a esperança do pra sempre. Eu não conseguia parar de sorrir. Perdi o meu ônibus, mas valeu a pena parar pra ver o amor passeando pela rua. 
O amor é novo, é velhinho... o amor é lindo.

9 de fevereiro de 2015

sábado, 9 de janeiro de 2016

Crônica do ônibus

Não exagero quando digo que tem sido maravilhoso andar de ônibus. Não tão maravilhoso quando faltam cadeiras e sobram passageiros, ou quando você passa algum tempo esperando numa parada... digo maravilhoso quando lembro de cada história que pude viver, conhecer e fazer parte mesmo que em poucas horas dentro de um coletivo.
Hoje conheci um menino. Devia ter uns sete anos. Cabelo lisinho, mãos gordinhas, tava tão cansado... encostou a cabeça na janela e... dormia. Entre lombadas, buracos, pessoas falando alto, entra e sai, vai e vem, ele dormia. Um lindo menino. - Ele pega esse ônibus todos os dias, moça. É um bom menino, gosta de conversar. Tem dia que ele senta lá atrás, mas hoje ele tá aqui na frente pra ficar perto dessa janela. Às vezes é meio ruim porque o sol bate forte mas ele nem liga... ele se preocupa mesmo é em sentir o ventinho. E dorme tranquilo tranquilo. - o cobrador me disse olhando para ele com carinho.
Sentei ao lado do mocinho. Não o conhecia, mas naquele momento era como se ele fosse parte da minha história de uma maneira muito especial. Eu sei que isso não se vê todos os dias, mas olhando para aqueles pézinhos... aqueles pés tão pequenos em sapatos tão gastos, rasgados e velhos, me senti na responsabilidade de ficar ali, ao lado dele. Enquanto eu pudesse. Naquele momento eu era como a irmã mais velha de um menino que eu nem conhecia mas já sentia tanto. Eu vi toda a inocência em olhos fechados. Toda a serenidade nos suspiros que ele dava enquanto dormia.
Tenho quase 18 anos e só comecei a andar de ônibus agora... antes sempre tinha algum carro pra me levar e eu tinha o banco traseiro todo pra me deitar. Mas ele... foi indescritível vê-lo ali, tão novo, tão desconfortável, mas com tanta paz. Aquele menino ao acordar me transmitiu felicidade. Ele me disse sorrindo: - Eu só dormi porque sei onde fica minha parada. Já aprendi! - ele se explicou quando perguntei onde ele ia descer. - Ah... e essa janela é boa demais! Dá pra dormir bem e tem até um ventinho no rosto - sorri junto.
Ele não sabe, mas hoje me ensinou muito mais que uma parada. Ele me ensinou a dar aquele sorriso de criança... independente dos sapatos, do transporte, do sol quente... ele era grato pelo vento que fazia. Ele era feliz, e o jeito que sorriu pra mim me fez ser feliz com ele. Me fez ser grata também. A maldade do mundo não fez mal nenhum àquele sorriso bonito. E ele foi embora.
Quero um dia poder ser igual ao menininho: quero sentir o vento ao invés do sol quente. Quero sorrir no meio do barulho e das caras feias. Descansar até no esburacado. Continuar caminhando com o melhor de mim, mesmo que meus sapatos estejam rasgados. Deus me dá mais que um sapato.
Hoje foi maravilhoso.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Resenha: Emma, Jane Austen

Nunca tinha feito nenhuma resenha quanto aos livros que já li, mas intuo que esse livro, em especial, mereceu ser o assunto da primeira. Sou um pouco suspeita para falar de Jane Austen - escritora preferida, né? Como ser imparcial? -, mas eu vou tentar! Espero que gostem.

Uma das coisas que mais me encanta na escrita de Jane Austen é toda a sinceridade e amor que ela inspira. As protagonistas de Jane são humanas, singulares e teimosas - e, mesmo separadas de nós por algumas centenas de anos, conseguem ser lindas e compreendidas até mesmo nos dias de hoje. 
Emma Woodhouse não foi diferente. Creio que, de todas as personagens de Austen, Emma foi a que mais me cativou. Apesar de ser, de acordo com a própria Jane, "a heroína que ninguém, além dela própria, iria gostar muito", Emma consegue conversar com o leitor como se fosse uma velha amiga. Ela tem falhas, imperfeições, e talvez seja esse o conjunto mais bonito dessa obra, porque foi exatamente isso que fez com que, vez ou outra, eu suspirasse comigo mesma, dizendo: "Eu imagino como ela se sente. Imagino muito bem".
De capítulo em capítulo, pude acompanhar o quanto Emma crescia, em alma e coração, o quanto ela conseguia se renovar sem nunca deixar de ser ela mesma - extremamente divertida e romântica. 
Me encanta o modo como o livro aborda cada personagem e suas particularidades. 
Em uma época tão diferente da nossa, é tão maravilhoso poder constatar que, apesar de regras e limitações, os sentimentos existiam de uma maneira linda e pura. Apesar de tanta imposição, o amor floresceu de uma maneira linda nesse livro que consegue ser doce, amargo e belo em todas as linhas. 
Constatamos a doçura do destino e das peças que tantas vezes ele nos prega - a curiosidade, a amizade, as boas intenções, o perdão e as razões que direcionam cada um dos personagens faz com que seja impossível não se identificar com ao menos um personagem do romance Emma.
597 páginas recheadas de ironia, segredos, sorrisos, tropeços e bons sentimentos. 
Se você for ler, recomendo atentar a todos os detalhes. É neles que vive a verdadeira genialidade de Jane Austen. 

Preciso mesmo dizer que amei?  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Doutor, é dor de coração.

- Não sei mais o que fazer.
- O que houve? - Perguntou o meu médico pela quinta vez após a minha mesma assertiva. 
- Esse é o problema, doutor... o que houve? Eu não sei. Como houve? Eu não entendo. Tudo o que eu sei é que está tudo errado. Estou com medo, doutor. Sofro de idas. De vindas. A dor, aqui, olhe... a dor não é de cabeça, de ouvido... é dor de coração. - debulhei-me em lágrimas. 
- Fique calmo. 
- Calmo? Você não estaria se estivesse no meu lugar. Pra onde fugir se é de si mesmo que você pretende se esconder? Para onde ir se é de seu velho eu que você precisa se livrar? O que beber, qual remédio tomar, qual o antibiótico pra o coração partido? Estou sem rumo dessa vez, doutor. Irônico, não? Logo eu. Sei que todos já tiveram seus respectivos corações partidos, juro doutor, não é masoquismo, mas no momento eu preciso sentir essa dor. Não sei mais o que fazer, eu só sei que a culpa foi minha. Olhe só... fui procurar amor onde não tinha. Bati a cabeça com força. Mergulhei no raso. Bebi o sem sentido, me embriaguei com o vão. Me enchi do vazio. Sinto frio. Eu sei onde se encontra o amor. Eu sei onde está a fé. Estou envergonhado. Eu preciso me encontrar. Mas eu sei onde me achar. Eu sei pra onde ir - e me levantei. Segurei firme o meu crucifixo. Essa dor não tinha diagnóstico humano. Eu precisava do amor para me curar. Mas veja que ironia... sem pedido, sem hora marcada, sem mérito, sem consulta e sem antibiótico... ele me curou. O amor já havia me curado. Mas eu preciso me deixar curar por ele. Todos os dias. Olhei mais uma vez o crucifixo.
- "Só a cruz esconderá quem você não é". - sorri. - Obrigado.


24 de janeiro de 2015