segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Doutor, é dor de coração.

- Não sei mais o que fazer.
- O que houve? - Perguntou o meu médico pela quinta vez após a minha mesma assertiva. 
- Esse é o problema, doutor... o que houve? Eu não sei. Como houve? Eu não entendo. Tudo o que eu sei é que está tudo errado. Estou com medo, doutor. Sofro de idas. De vindas. A dor, aqui, olhe... a dor não é de cabeça, de ouvido... é dor de coração. - debulhei-me em lágrimas. 
- Fique calmo. 
- Calmo? Você não estaria se estivesse no meu lugar. Pra onde fugir se é de si mesmo que você pretende se esconder? Para onde ir se é de seu velho eu que você precisa se livrar? O que beber, qual remédio tomar, qual o antibiótico pra o coração partido? Estou sem rumo dessa vez, doutor. Irônico, não? Logo eu. Sei que todos já tiveram seus respectivos corações partidos, juro doutor, não é masoquismo, mas no momento eu preciso sentir essa dor. Não sei mais o que fazer, eu só sei que a culpa foi minha. Olhe só... fui procurar amor onde não tinha. Bati a cabeça com força. Mergulhei no raso. Bebi o sem sentido, me embriaguei com o vão. Me enchi do vazio. Sinto frio. Eu sei onde se encontra o amor. Eu sei onde está a fé. Estou envergonhado. Eu preciso me encontrar. Mas eu sei onde me achar. Eu sei pra onde ir - e me levantei. Segurei firme o meu crucifixo. Essa dor não tinha diagnóstico humano. Eu precisava do amor para me curar. Mas veja que ironia... sem pedido, sem hora marcada, sem mérito, sem consulta e sem antibiótico... ele me curou. O amor já havia me curado. Mas eu preciso me deixar curar por ele. Todos os dias. Olhei mais uma vez o crucifixo.
- "Só a cruz esconderá quem você não é". - sorri. - Obrigado.


24 de janeiro de 2015

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