sábado, 7 de novembro de 2015

Meus pés, teus calos

É preocupante quando seis horas de salto são mais preocupantes para alguém que seis horas de pé num ônibus lotado.
É estranho quando nos irritamos quando a fila da lanchonete está grande e esquecemos do mocinho do lado de fora que acordou tão cedo, mas mesmo assim não pôs nem um pedacinho de pão na boca. 
Minha indignação não são as seis horas de salto. Não são os calos. Eu posso conviver com eles vez ou outra.
Me preocupa o fato de quase ninguém estar preocupado.
Foragidos, imigrantes? Contanto que não sejam os haitianos no meu Brasil, o problema não é meu, vou me comover em rede social.
Índios? Quem liga pra eles? Eles já têm um dia pra eles no calendário, isso é o suficiente. Não é?
Alguém que ainda não tomou café hoje? Que pena, né. Mas pelo menos emagrece sem precisar tomar shake, olha aí.
A dor do outro? Eu esqueci. Se não é a minha, eu não sinto. Estou cego. Surdo. Mudo.
Estou boquiaberta mas não estou muda. Vou gritar sempre.

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