terça-feira, 17 de novembro de 2015

Salut, Marin!

Comecei o dia na companhia duma bela alvorada. Digo, bela mesmo. Havia passado a noite inteira acordada, observando um por cento do universo que estava na palma da minha mão. Estava. As cores das hortênsias e orquídeas no jardim que fiz questão de cuidar no verão passado. O latido desesperado dos cachorros da vizinhança, protestando por liberdade. "Liberdade!", latiam em coro, eu imaginava. E sorria. É, acho que todos sonham com essa tal liberdade, não é? Sinceramente, naquele momento eu não sonhava. Nem dormia. Abaixei a cabeça e pude observar em cima da velha mesinha perto da estante a prova da despedida do meu amado, que dormia tranquilo logo ao lado. O meu marinheiro. Ele queria os sete mares. Ele queria abraçar o mundo e sentir-se abraçado pelo universo. Ele queria o infinito e o além. Eu só queria ele. 
Na noite anterior bem que tentei dizer isso para ele, mas marinheiros têm a alma livre. Eles precisam velejar. Remar. E infelizmente os ventos sopravam para a direção oposta a mim. Os ventos sopravam para o mundo. Meu bravo marinheiro queria desbravar o mundo. De vez em quando a mãe dele nos ligava e chorava a noite inteira insistindo para que ele ficasse. Para que ele fincasse. Literalmente. Mas ele era um marinheiro, e os ventos dos marinheiros hora ou outra sempre decepcionam. A imensidão azul não aceita amor. E eu achava puro egoísmo do mar querer ele quando existiam tantos no mundo. Com tantos no mundo, por que ele? Por quê o meu marinheiro? Entre lágrimas e retóricas, eu fazia o meu oceano particular. Mas ele não queria o meu oceano nem meu mar. Ele queria o mundo. Queria os mares, pois já havia aprendido a dizer adeus. Ele só sabia dizer adeus. Quando estávamos juntos, entre um beijo e um sorriso, ele dizia que voltaria. Mas eu sabia que era mentira. Ou talvez não fosse mentira. Talvez ele quisesse. Mas não, ele nunca voltaria. Abaixei a cabeça mais uma vez, acrescentando mais umas gotas ao meu Oceano Pacífico; ao oceano que eu queria que fosse pacífico. Olhei para o lado e vi aqueles pequenos olhos azuis me fitando. Olhos que sorriam, enquanto eu protestava em silêncio. O oceano roubou ele de mim. O meu amor. O meu marinheiro.
 Depois da costumeira ducha matutina, ele se vestiu. Enquanto ele estava ali, engomando mais uma vez cada peça de seu uniforme, toquei os lábios dele minuciosamente fazendo-o parar de arrumar aquela roupa que eu tanto odiava. Tocava-lhe os lábios como se fosse a última vez. Era a última vez. A última vez. Uma lágrima teimosa rolou por minha face. Agora estava de frente a ele. Observando cada expressão de sua face. As sobrancelhas sempre inquietas. Uma em cima, outra embaixo. A boca sempre se mexia, mesmo quando ele não queria me dizer nada. Os olhos sempre atentos. Eu sempre seria uma pobre guerreira desarmada diante daqueles olhos. Olhos que sorriam. Olhos que prometiam. Olhos inquietos, que se desviavam, que fugiam. E fugiram. Conversávamos mais com os olhos. Até mais que a própria boca. A gente nunca precisava de palavras. Sorríamos no olhar. Conversávamos no olhar. Amávamos num simples e único olhar. Mais uma lágrima clandestina em meu olhar silenciosamente descia pelo meu rosto. Molhava o meu rosto. Era o meu oceano. Ele me abraça, beija minha cabeça, me faz um cafuné rapidinho, um carinho e termina de se arrumar. Termina de se arrumar para o adeus. Perto da porta, observei-o partir. Aquele ar de decidido. Aquele quê de mistério e bravura que eu tanto admirava. Estava partindo. E partiu meu coração. Fechei os olhos e cantarolei a famosa cantiga para que apenas o meu oceano escutasse. Meu oceano que se foi. Que secou. Oceano que partiu e deixou comigo apenas água.

"Salut, marin! Bon vent à toi

Tu as fait ta malle, tu a mis les voiles

Je sais que tu n'reviendras pas

On dit que le vent des étoiles

Et plus salé qu'un alizé

Et plus salé qu'un alizé

Plus entétant qu'un mistral

Plus entétant qu'un mistral

Au revoir marin, tu vas manquer

Au revoir marin, tu vas manquer

Tes yeux bleus, ton air d'amiral



Salut marin bon vent à toi

J'te dis bon vent mais ça m'fait mal

Car marin tu emportes avec toi

Toute notre enfance de cristal

Et notre jeunesse de miel

Et notre jeunesse de miel

Et tous nos projets d'arc en ciel

Et tous nos projets d'arc en ciel

Et du Cap Horn à Etretat,

Du Havre aux plages de Goa

L'horizon à toi se rappelle



Vous, les marins, vous êtes ainsi

Vous ne savez rien d'autre que partir

Vous, les marins, vous êtes cruels

Vous nous laissez au large de vos souvenirs

Vous, le marins, vous êtes sans coeur

Vous préférez la mer à vos amours

Et les sirènes de chaque port

À vos mères, à vos femmes et à vos soeurs.



La vie marin passe sans bruit

Comme autrefois tout en secoussses

Quelquefois c'est la houle et le roulis

Et quelquefois la vague est douce

Alors je fais comme il se doit

Alors je fais comme il se doit

Je vis tranquille au bord d'un précipice

Tranquille au bord d'un précipice

Marin tu serais fier je crois

Marin tu serais fier je crois

Je vis de face, le vent aux trousses

Tout comme toi."

Salut, marin... bon vent à toi. Je veux savoir qu'un jour vous reviendrez. Je t'aime. Melhor dizendo... eu amo você.

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