sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobrevivente

Era difícil respirar. Ele se achava o dono do mundo, o Deus, o tudo. E eu? Nada. Eu não era nada. Ou um algo vez ou outra. Produto. Objeto. Saco de pancadas. Ele me fazia sentir um lixo. Humilhada, jogada, pisada, cuspida. Eu não sabia o que fazer além de chorar. Fingir que estava bem? É, eu era muito boa nisso. 
Jarros quebrados, portas arrombadas, coração despedaçado - mas meia hora depois se estivesse tudo bem para ele, então tudo devia estar bem para mim. Era como morrer aos poucos. Como aquele jarro quebrado, eu estava em pedaços.
- Calma, amiga. Não foi nada, juro. Como pode ter sido alguma coisa séria? Ele é formado, esclarecido. Rico. Doutor. Leitor. Eu tenho sorte. Eu tenho muita sorte de ser a esposa dele, (apesar de) por tudo. Ele estava estressado, eu posso perdoar, não posso? Afinal, eu estiquei a corda. Eu não devia ter dito que não estava bem. Não devia ter dito que doía. Fiz por merecer. Ele não me estrangulou, só apertou um pouco mais forte. Eu entendi. Eu o amo. -
Ele chegava em casa de onze, doze, uma da manhã. Eu entendia. Eu sorria. Fingia. O jantar estava pronto. Prato bonito, cheio, passei a noite inteira preparando. Queimei até os dedos por isso, mas nada que não pudesse ser disfarçado. As crianças estavam no quarto, já dormiam. Minhas crianças. Meus dois tesouros. Eu faria de tudo por elas, até mesmo aguentar aquilo em silêncio.
Ele bebia. E então começava a dose de humilhação diária. - Seu lixo. Você não é nada. Vagabunda. - Ô amorzinho, não fala assim, dói tanto. Ele falava. E eu chorava escondida. Doía. Tanto. Essa era eu.
Nada de batom vermelho. Esse vestido? Nem pensar. Sair de casa? Vai se encontrar com ele, não é? Mulherzinha! Falo isso porque te amo. Vem cá, vem. Olha o que eu comprei... panelas de inox. Essas são boas, meu amor. Vai fazer minha comida, vai. Vai lavar minhas roupas. Volto hoje talvez. Amanhã, quem sabe. Você vai continuar aqui, minha doce es(crava)posa.
Ah, respiro fundo. Passou. Acabou. Chega! - É outro, não é? Você não pode me deixar, meu amor! Eu vou morrer sem você. Você vai morrer sem mim. Vem cá, por favor. Você nunca vai encontrar alguém como eu. Venha cá agora, ou eu... - ou você o quê? Você nada. Você não é o meu dono. Você não é mais minha amarra. Você não pode mais me bater. Não pode mais me ferir. Eu sou uma boa esposa, eu vou ser melhor. Eu sei. E você não vai mais me machucar. Nem a mim nem às minhas crianças. Nunca mais. Eu não estou mais cega. Nem surda. Eu nunca mais serei muda. Eu não vou mais aceitar.
Ainda respiro.
Meu Deus.
Adeus.

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