(Clarice Lispector)
Eu era bem nova. Tinha uns seis, sete anos. - Quase sete, eu costumava dizer, muito feliz, quase orgulhosa. Afinal, não é isso que quase todas as crianças sonham? Ficar mais velhas... existe uma mágica diferente em ser mais velho, ou a gente achava que existia. Mas isso era um assunto para alguns anos mais tarde...
E lá estava eu, no pequeno parquinho da cidade, um dos meus lugares preferidos no mundo, simplesmente porque aquele parque era diferente - de todos os parques do mundo, aquele era o meu parquinho. Meu velho e conhecido. Era diferente também pelo fato de ficar bem no alto da serra que era próxima a minha antiga casa - e se a gente olhasse com cuidado, víamos as nuvens nascendo, criando forma, indo, vindo. Era tudo tão lindo.
Como em todo o parque, esse também tinha balanços, escorregos, areia, crianças, sorrisos... ah, as risadas! Aquela gritaria que fazia qualquer um sorrir junto - espantava qualquer tristeza, até a do meu pai, que sempre me acompanhava quando eu ia ao parquinho.
Em geral ele era uma pessoa solitária, o papai. Trabalhava tanto, se esforçava tanto, fazia sempre tudo, recebia quase tão pouco. Ele não era de reclamar, mas era triste. Triste até chegar em casa. Sempre às cinco da tarde. Era pontual. Ele chegava, me abraçava, me rodopiava pelo ar como uma bailarina, e fazia o mesmo convite: - vamos ver os anjos no parquinho? - e eu sorria. - vamos, papai! Vamos!
Ele segurava a minha mão e cuidava de mim. Olhava e prestava atenção, mas me deixava cair vez ou outra. - Oh filha, precisa cair vez ou outra pra se levantar de novo. Se ralou? Chega aqui, dá um abraço no papai. - era o abraço mais aconchegante de todos. O meu melhor amigo de todos. De todos, o meu papai. Haviam más notícias, vez ou outra era difícil, mas eu sabia que estaríamos sempre juntos.
E então entardecia. Quase seis horas. E chegava a hora... - vem, filha! Vem pra o braço! Vamos ver os anjos! - e eu corria para ele. Ficávamos ali admirando. Os passarinhos voltavam para suas casas. As nuvens mudando de azul para amarelo e laranja e rosa. Rosa era a minha cor preferida de nuvem. A brisa subindo e descendo. As luzes se acendendo lá embaixo, no nosso vilarejo. Mas nós só conseguíamos olhar para o céu. Procurando os anjos, segundo o papai.
Eu nunca os vi, mas ele me garantia que eles estavam ali. Estavam sim.
- Filha, não deixe que ninguém te diga que os anjos não existem. Eles existem sim. Eles estão em você. Estão em mim. Os anjos estão sempre ao nosso redor. Ali, está vendo? - ele apontava. - Aquela é a estrela Dalva. Dali eles também podem nos ver. Daqui nós podemos chamar. Eles sempre vão nos ouvir. Sempre vão estar aqui. Sempre, não importa o que aconteça. Como a mamãe. - Ele colocava a mão no lado do coração. Pus também. - Como a mamãe. - Sorri.
Os anos se passaram. O papai já foi morar numa estrela. A mamãe também. Mas quer saber? Eu ainda sei que os anjos existem. Cheguei tarde do trabalho, exausta... mas olhei para o céu. E antes olhei para as pessoas ao meu redor. Eu sei que o mau humor existe, o dia ruim também... mas também conheço os sorrisos. O bom dia, o abraço inesperado, a gratidão de olhos fechados, o "eu acredito" - e eu resolvi acreditar nesses pequenos grandes anjos. Eles não estão apenas no céu, na estrela Dalva... eles estão aqui. Estão em você. Estão em mim. Anjos. É, eles existem.
Obrigada, papai.
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